Eliane Faccion: foi-se a discrição em pessoa

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Por onde passa, toda pessoa deixa uma marca. A marca deixada pela jornalista Eliane Faccion foi a da discrição. Ao falecer, na última quinta, 18, aos 73 anos, Eliane cumpria mais uma etapa – a etapa final – de seu caminho de volta. Ela foi velada e sepultada na mesma cidade onde nasceu, São João Del-Rei, depois de ter cumprido uma extensa carreira no jornalismo e na militância política. Eliane foi repórter e editora em importantes veículos de comunicação do país. Também foi assessora de comunicação e professora de jornalismo. Tudo isso sem ter deixado de lado a militância em favor das boas causas políticas e humanistas.

No Facebook, sua última publicação, de 20 de abril deste ano, era o compartilhamento de um card que, de certa forma, sintetizava os ideais de sua geração: “Onde houver Gustavo Lima, que eu leve Gilberto Gil; onde houver Leonardo, que eu leve Caetano Veloso; onde houver Zezé de Camargo, que eu leve Chico Buarque”.

Eliane Faccion formou-se em jornalismo, em 1979, pela PUC Minas. Em redação, trabalhou como repórter no Jornal de Casa, na sucursal mineira do Jornal do Brasil e no Estado de Minas, como subeditora de Internacional, em dupla com Dídimo Paiva. Como professora de jornalismo, trabalhou na faculdade Newton Paiva e na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), dando cursos sobre o uso da imprensa pela extensão rural.

Eliana Faccion foi também assessora de Comunicação da Fundação Palácio das Artes na gestão do jornalista Mauro Werkema, que guarda dela boas lembranças. “Politizada, inteligente, culta, dedicada, amiga e colega, era solidária com as melhores causas da cultura, do jornalismo e da luta por uma sociedade mais justa”, afirmou Werkema.

Eliane sempre conciliou o jornalismo com a militância em favor das boas causas políticas e humanistas.

Gosto pelas artes

Eliane Faccion tinha gosto pelas artes. Era poetisa e cantora. Em 1985, participou da coletânea Taquicardias, organizada por Roberto Barros de Carvalho (Edições Dubolso, 1985). No violão, não ficava devendo nada aos melhores instrumentistas. Em 1970, aos 20 anos, em Sabará, foi ao som do violão que ela conheceu a também jornalista Diva Moreira, com quem manteve uma amizade de mais de meio século.

Nos últimos anos, Diva acompanhou de perto a penosa batalha que Eliane travou contra o câncer. Em 2022, esteve com ela durante uma semana em São João Del-Rei. No último dia 6 de maio, já sabendo que o câncer era uma batalha perdida, Diva foi visitá-la pela última vez. “Fui me despedir e sofri ao ver o seu sofrimento”, afirmou Diva.

Diva Moreira e Eliane Faccion tiveram a mesma formação acadêmica – jornalismo e ciência política – e também compartilhavam os mesmos ideais. Na juventude, Eliane era ligada ao Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, como era conhecido, mas combinava essa posição política com o nacionalismo, que tinha Leonel Brizola, Darci Ribeiro e João Goulart como figuras mais expressivas, define Diva Moreira.

Nos anos de 1980, Eliane Faccion dividiu apartamento com a também jornalista Mirian Crystus, que era estudante do doutorado em Letras. Apesar de dividirem o mesmo teto, cada uma tinha seu mundo particular. Para aquele espaço, Eliane levava lideranças operárias. “Eu, no doutorado em Letras, estudando pós-modernidade, não achava muito aquilo interessante e questionava meio sem fundamento”, afirma Mirian Crystus em uma rede social. “Ela ria e tinha muita paciência”, afirma.

Com Eliane Faccion a jornalista Vilma Fazito dividiu outro espaço: o da redação do jornal Estado de Minas, “o grande jornal dos mineiros”, como dizia o slogan da publicação na época – final dos anos de 1980. “Lembro-me daquela moça pequena, magrinha, de cabelo curto e de óculos, sempre entretida no seu trabalho. Mesmo com a redação barulhenta e as Remington e as Olivetti tilintando na cabeça da gente, ela não desviava sua atenção do fechamento das páginas”, descreve Vilma Fazito, que era da editoria de Agropecuária.

Vilma conta que já conhecia Eliane das assembleias no Sindicato dos Jornalistas, mas só se tornou amiga dela depois que foi trabalhar no Estado de Minas. “A partir daí, passei a admirar não somente seu talento profissional, mas sua personalidade de mulher forte, ativista pelas mais diversas causas, desde as lutas sindicais, passando pelas liberdades femininas e pela defesa do meio ambiente”, afirma.

“Era uma mulher inteligente, politizada, uma pessoa humana da melhor qualidade e uma profissional muito competente”, afirmou a jornalista Dinorah do Carmo, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. “Era uma pessoa doce, sensível, muito criteriosa e competente”, acrescentou o jornalista Jurani Garcia, que a conheceu em um congresso de jornalistas em 1974.

O caminho de volta

Depois de se aposentar, Eliane Faccion mudou-se para São João Del-Rei, de onde, pela internet, fazia trabalhos de redação e revisão. Antes da pandemia, procurou o gabinete da vereadora Lívia Guimarães (PT) com o propósito de desenvolver algum tipo de militância política. Lá, quem teve muito contato com ela foi o jornalista Salvio Pena. A relação, segundo ele, foi muito discreta, pois ela era muito cuidadosa e falava baixo.

“Ela era sempre muito discreta, do jeito dela”, afirmou Sávio. Segundo ele, com a pandemia, Eliane Faccion nunca mais frequentou o gabinete. “Nunca mais apareceu”, afirma ele, que lamentou muito ter ficado sabendo de sua morte só após o sepultamento. “Fiquei muito sentido por não ter ido lá me despedir dela”, afirmou.

Neste momento final, talvez até o convite aos amigos tenha tido a marca de Eliane Faccion em vida: a da discrição

Eliane Faccion (9 de dezembro de 1949 – 18 de maio de 2023)

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