Rádio Inconfidência faz 87 anos: o Gigante continua ativo e no ar

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Orion Teixeira
Jornalista | Blog do Orion

Como o rádio, que faz há 100 anos no Brasil, a Rádio Inconfidência, ‘o Gigante no ar” sobrevive à tecnologia e, principalmente, a governos. “Em 2019, um certo governo “novo”, decidiu calar a voz mais antiga do rádio mineiro, e anunciar o fim da faixa AM 880, ocupada pela emissora Rádio Inconfidência. O movimento #ficainconfidência, encabeçado pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, e apoiado pelos trabalhadores da emissora, juntamente com artistas e parlamentares, no entanto, conseguiu barrar essa morte anunciada, com realização de protestos, audiências públicas, e mobilização cultural”.

Leia na íntegra, o artigo da presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais e jornalista da Rádio Inconfidência, Lina Rocha, com exclusividade para o site Além do Fato, sobre os 87 anos da Inconfidência.

Presidenta Lina Rocha, do SPJMG, faz a defesa da Inconfidência em debate na Assembleia Legislativa, foto Guilherme Dardanham/ALMG

Rádio Inconfidência é um patrimônio dos mineiros

Em seus 87 anos, comemorados em 3 de setembro, a Rádio Inconfidência simboliza a era de ouro do rádio brasileiro. Não à toa um dos seus principais slogans, usado durante muitos anos, foi “O Gigante do Ar”. Em seu currículo memorável, constam programas de auditório, orquestras fixas, conjuntos musicais, exibição de rádionovelas e coberturas de copas do mundo. É uma história que se confunde com a própria história do rádio brasileiro.

Fundada pelo então governador Benedito Valadares, a emissora já nasceu pública, com objetivo de cumprir um papel educativo e também integrar o interior de Minas à capital Belo Horizonte. Uma visão bastante pioneira para aqueles tempos e que contou com investimentos, tanto que seus primeiros equipamentos tiveram que ser importados de Londres.

Em um Brasil com a população majoritariamente rural, o programa ‘A hora do fazendeiro’ inaugurou a emissora, 5 dias após seu lançamento, levando informação aos moradores do campo que estavam distantes dos fatos da “cidade grande”. O programa é considerado o mais antigo do rádio da América Latina, e está no ar diariamente, das 17h às 18h45, apresentado por Tina Gonçalves.

Dois canais para toda os mineiros

Durante muitos anos, a Inconfidência entrou no ar com 2 canais: AM 880 e 6010 Inconfidência Ondas Curtas, com uma programação simultânea e levando o sinal da rádio a toda população de Minas.

No final da década de 1979, mais uma vez pioneira, foi inaugurada a Inconfidência FM, sob a nova frequência 100,9, denominada Brasileiríssima FM. O canal, nesse contexto, surgiu com o objetivo de modernizar o rádio, com a estreia de uma linguagem jovem e com faixas musicais exclusivamente dedicadas à MPB. Foi nesse período que o FM teve à frente do seu comando um dos principais compositores brasileiros, o saudoso Fernando Brant.

Muitos artistas foram revelados na Inconfidência como Clara Nunes, Gonzaguinha, o Clube da Esquina, Vander Lee e tantos outros nomes que estão associados a essa memória. E entre os mais antigos apresentadores da FM, está Tutti Maravilha, um dos precursores da linguagem jovem do rádio mineiro, que se mantém firme na condução diária de seu Bazar Maravilha.

Fica Inconfidência

Em 2019, um certo governo “novo”, decidiu calar a voz mais antiga do rádio mineiro, e anunciar o fim da faixa AM 880, ocupada pela emissora Rádio Inconfidência. O movimento #ficainconfidência, encabeçado pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, e apoiado pelos trabalhadores da emissora, juntamente com artistas e parlamentares, no entanto, conseguiu barrar essa morte anunciada, com realização de protestos, audiências públicas, e mobilização cultural.

O AM sobreviveu, mas a Rádio Inconfidência corre o risco de ver toda essa rica memória se perder. Em 2016, foi criada por lei a Empresa Mineira de Comunicação, e a Rádio Inconfidência se tornou nome fantasia. Esse é o entendimento do Governo, que já se expressou algumas vezes, inclusive em audiências públicas na ALMG, dizendo publicamente que “não existe mais Rádio Inconfidência, agora é EMC”.

Corre tanto risco que um dos seus mais antigos funcionários, Ricardo Parreiras, 95 anos e desde 1946 na emissora, apresentador do Clube da Saudade, foi demitido, sem aviso prévio, sem se despedir de seus ouvintes. O fato o impactou tanto que o Sindicato dos Jornalistas promoveu essa despedida, com seu último programa gravado em estúdio particular e veiculado em redes sociais.

Direito da população

A Rádio Inconfidência é um patrimônio dos mineiros. Representa a comunicação pública em Minas, a única no Estado com esse formato. E comunicação pública é um direito da população, assim como cultura e educação, e deve ser valorizada com investimento financeiro, com programação de qualidade, com a realização de concurso público. A comunicação pública está no DNA da Inconfidência.

Ricardo Parreiras

Ricardo Parreiras, 95 anos, mais de 70 anos dedicados à Inconfidência: decano e a cara da rádio

São 87 anos de muita história, contada por tantos artistas, jornalistas, locutores, narradores que nela deixaram sua marca registrada e que ajudaram a construir esse caminho. A Rádio Inconfidência é um patrimônio do povo mineiro, daquele que cresceu ao som do berrante do Bentinho do Sertão, nos grotões do Estado, escutando ‘A Hora do Fazendeiro’.

Daqueles que se encantaram com a bela voz de Nelson Gonçalves, de Elis Regina, de Emilinha, com as lindíssimas orquestras próprias e que choraram com as rádionovelas.

Primeira narradora de futebol

Com os jovens músicos que se revelaram no Bazar Maravilha, que se emocionaram com a voz grave de Gonzaguinha e que gritaram gol junto a Jairo Anatólio. São mulheres que se empoderam porque viram ser revelada na Inconfidência a primeira mulher narradora de futebol do Brasil, Isabelly Moraes; que acompanham programas de debate como Radiografia e que se agendam no Plugue. São os ouvintes que escutam o noticiário de qualidade no percurso de seu trabalho, e aqueles ouvintes inseparáveis que não perdiam o Clube da Saudade, com Ricardo Parreira, e que agora choram sua ausência.

Governos não são proprietários de bens públicos, governos vão e vem, e não têm o direito de usurpar patrimônios e fazer deles o que bem entender, porque esses patrimônios são do povo.

Minas são muitas, já dizia o poeta, mas se há um símbolo de Minas Gerais que tem o direito de ser preservado, com respeito a toda sua história, que foi narrada e cantada nesses 87 anos, esse símbolo é a Rádio Inconfidência, para sempre “O Gigante do Ar”.


(*) Presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais

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