Nirlando, uma expressão do espírito de Minas

Por Lindolfo Paoliello

Nirlando permanece. Ele, afinal – como comentou certa vez sobre o mineiro- padecia de irrealidade. Pela sutileza, discrição e elegância interior. Desta parecia destoar uma vez ou outra, pela ironia. Mas esta se compreende. Machado de Assis já advertia: “ironia é o pudor da razão diante da vida”.

Nirlando Beirão era crítico, como se constata entre pessoas sensíveis. Mas sua ironia era aquela dos mineiros que Alceu Amoroso Lima entendia ter mais do humor britânico, que trata com um sorriso das coisas graves, do que da ironia francesa que é ferina. Alinhando-se como poucos ao perfil traçado pelo “Dr Alceu”, observava tudo o que se passava, mas não dava sinal de nada.

Seu humor nunca se apressava e sabia aguardar o momento oportuno para atingir seu alvo. Não se dava por achado e sabia manter aquele certo sentimento de mistério que enerva e faz o outro apressar-se e errar. Sua finesse o conduzia aos entretons e entrelinhas mas, quando era tempo, sabia cortar em pedacinhos.

Nirlando viveu como quem sabe apreciar lentamente a vida. Qualidade do homem da montanha, habituado a subir ladeiras, expressa na permanente impressão de paz e serenidade. Avesso ao artifício e à dissimulação afastava-se da exuberância e se distinguia pela simplicidade e sobriedade. Às vezes dava a impressão de ceder facilmente, mas no fundo não cedia nunca. Era sua aversão a reações bruscas. Nirlando Beirão foi a expressão viva da força na doçura.

*Nirlando Beirão, irmão da querida  jornalista mineira, Nereide Beirão, faleceu no dia 30 de abril, aos 77 anos, em São Paulo, em decorrência de complicações da ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

4/5/2020

 

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