Afiliada do SBT em Alagoas ‘importa’ estagiários para fazer trabalho dos jornalistas. Greve continua

Com mais de 90% dos profissionais em greve, as emissoras de televisão de Alagoas estão recorrendo à contratação irregular de ex-estagiários e recém-formados, sem experiência alguma em televisão, para colocar os telejornais no ar. O resultado é grotesco: “matérias” sem imagens, reprise de reportagens de até dois anos atrás, entradas “ao vivo” gravadas no estúdio e artes mal desenhadas.

Segundo o saite NaTelinha, o Sistema Opinião, que controla afiliadas de diferentes redes de televisão no Nordeste, deslocou ao menos três estagiários da TV Clube, parceira da Record no Recife, para a TV Ponta Verde, que retransmite o SBT em Maceió. O objetivo foi cobrir a falta de jornalistas, que estão em greve há oito dias. Três estagiários fizeram reportagens passando-se por profissionais embora sejam estudantes de jornalismo. Os estagiários recebem um salário mínimo, bem abaixo do piso salarial dos jornalistas.

A “importação” de estagiários talvez decorra do fato de a situação dos estagiários em Alagoas ser muito pior, segundo um sindicalista ouvido pela reportagem. A afiliada da Globo paga R$ 180 para cada um. Com esse salário ilegal fica difícil contratar até mesmo estagiários.

Além disso, na sexta-feira 28/6, os estudantes e professores de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas também paralisaram suas atividades em apoio à greve dos jornalistas.

O diretor da Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e do Sinjope (Sindicato dos Jornalistas do Pernambuco), Osnaldo Moraes, explicou que o uso de estagiários para substituir profissionais é irregular. “Essa denúncia é gravíssima. Já havíamos recebido informes vergonhosos de profissionais da TV PE sendo enviados, o que também é absurdo”.

A ação do grupo Opinião contraria a Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008, que regulamenta os estágios.

Osnaldo afirmou que o Sindicato pretende acionar a justiça. “Enquanto diretor da Fenaj e do Sinjope, adianto que, embora absurdamente a legislação não nos dê condições de intervir em questões de estágios, vamos agir”, disse.

Uma das palavras de ordem dos grevistas, cujo movimento completa oito dias nesta terça-feira 2/7, é um apelo aos estagiários para que não façam o trabalho dos profissionais. Afinal, é o futuro deles que está em jogo.

A queda de qualidade da programação das emissoras vem sendo criticada pela população e virou piada nas redes sociais. Durante toda a greve, o Bom Dia Alagoas simula ser ao vivo, mas tem sido gravado na noite anterior. Na segunda-feira 1/7, o jornal “barrigou” ao tratar Marcelo Cabo como técnico do CSA: Cabo foi dispensado na noite de ontem, provavelmente após a gravação do jornal.

O amadorismo tem gerado memes como o “caminhão voador”, após a âncora inexperiente dizer que o cantor Gabriel Diniz morreu em uma queda de caminhão. O erro foi noticiado por portais nacionais.

O portal G1 Alagoas, com 100% dos funcionários em greve, deixou de funcionar na quarta-feira 26/6, quando o editor-geral entregou o cargo para juntar-se ao movimento. Todos os produtores de rede da afiliada Globo em Alagoas entregaram seus cargos no início da greve.

Adesão e solidariedade

Os jornalistas de Alagoas deflagraram greve em assembleia realizada na segunda-feira 24/6, depois de recusar a proposta patronal de redução de 40% no piso salarial. Em Alagoas, o piso abrange praticamente toda a categoria e é uma conquista história, obtida com outra greve, em 1979.

Estão em greve os três principais grupos de comunicação do estado: a Organização Arnon de Mello (OAM), do senador Fernando Collor (TV Gazeta – afiliada Globo, portais G1 e Gazetaweb, jornal Gazeta de Alagoas e TV Mar), o Pajuçara Sistema de Comunicação, da família do prefeito de Maceió, Rui Palmeira, e dos donos da Sococo (TV Pajuçara – afiliada Record e portal TNH1) e o Sistema Opinião (TV Ponta Verde, afiliada do SBT, e portal OP9), do Grupo Hapvida.

A greve ganhou solidariedade dos jornalistas de assessoria, envolveu as famílias dos trabalhadores e vem recebendo apoio da população. Estabelecimentos comerciais enviam alimentos e água para os grevistas. Artistas fazem shows em benefício do movimento. Nesta terça, a jogadora de futebol Marta divulgou um vídeo, gravado em Orlando (EUA), onde joga, de apoio à greve.

Segundo o presidente do Sindjornal, Izaías Barbosa, os jornalistas estão unidos e firmes. A proposta patronal significa o aviltamento da profissão e desqualificação do jornalismo. Os trabalhadores estão abertos a negociar, mas não aceitam a redução salarial.

A greve é mantida com piquetes nas portas das empresas, passeatas diárias, assembleias e uma série de atividades. No primeiro dia, uma campanha convocou a população para doar sangue para o banco de sangue público, com o lema: “Meu sangue pelo jornalismo”.

Acompanhe a greve pelo Twitter: https://twitter.com/sindjornal.

(Com informações do NaTelinha e do Sindjornal. Crédito da foto: Waldson Costa.)

Leia também: Empresas de Collor acumulam mais de R$ 256 milhões em dívidas trabalhistas

 

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[2/7/19]

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