Casa do Jornalista está na moda e tem estilo ‘slow’

Sindicato foi sede, em Belo Horizonte, do evento oficial do Fashion Revolution Day, movimento de ativismo internacional engajado em denunciar os impactos negativos da indústria da moda, que ocorreu em diversas capitais no mundo.

Por Valéria Said Tótaro*

A partir de um debate realizado na Casa do Jornalista, em dezembro passado, sobre o movimento Slow Fashion, que defende o consumo ético de moda e políticas de sustentabilidade para a economia do planeta, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) assumiu a agenda de promover e sediar discussões sobre o tema. Trata-se do 1º Brechic, brechó dos jornalistas, organizado pelo SJPMG como parte das reflexões sobre a importância da cultura dos brechós na política de sustentabilidade, pois sua prática dá um tempo maior de vida útil às roupas, contribuindo, assim, para diminuir o impacto de resíduos têxteis no meio ambiente (http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/paulo-navarro/guarda-roupa-consciente-1.96885).

Em 24 de abril, o SJPMG sediou o evento oficial do Fashion Revolution Day (FRD) em Belo Horizonte, um movimento de ativismo internacional engajado em denunciar os impactos negativos da indústria da moda e que está em sua segunda edição. A data refere-se à tragédia que ocorreu em 2013, em Bangladesh: o edifício Rana Plaza, que abrigava diversas fábricas de roupas que produziam, em larga escala, para renomadas marcas globais, desabou e matou mais de 1.100 trabalhadores têxteis e outros 2.500 ficaram feridos. Por isso, o evento aconteceu simultaneamente em várias partes do mundo e capitais do Brasil, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Campinas, Ribeirão Preto, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis e Pomerode (SC).

Desde a tragédia de 2013, o movimento FRD tem se tornado viral, a fim aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu real impacto, da produção ao consumo, para a economia, para o meio ambiente e, principalmente, para os direitos humanos de milhares de trabalhadores, que são explorados em condições análogas a trabalhos escravos. No Brasil, o movimento Slow Fashion ainda é pouco conhecido e em BH apenas algumas editorias, colunas e blogs de moda têm divulgado essas iniciativas slow, com notas e matérias sobre um consumo mais responsável e menos impulsivo, para além da tendência mainstream (fast fashion), cujo foco é apenas seduzir consumidores a comprar mais do que precisam, sem considerar os impactos sociais e ambientais.

Diante desse contexto de políticas de sustentabilidade, firmou-se a parceria SJPMG/Fashion Revolution Day (https://www.facebook.com/fashionrevolution.brasil?fref=ts),com o objetivo de promover debates públicos sobre o consumo de moda consciente e direitos humanos com jornalistas, estilistas, designers e arquitetos engajados no movimento (http://www.sjpmg.org.br/2015/04/fashion-revolution-day-2015/). Nesta edição em BH, além de discutir alternativas e soluções sustentáveis no campo da moda e refletir sobre a conexão da ética com a estética da sustentabilidade, a formação acadêmica para o setor e a dificuldade de se fazer cobertura jornalística ético-crítica sobre moda sustentável foram temas provocados pela mesa e público presente, que lotou a Casa. E para mostrar na prática o que seriam peças slow, houve exposição e desfile de roupas, joias e acessórios de marcas comprometidas com uma moda economicamente viável, socialmente justa, ambientalmente correta e esteticamente atraente.

Eis aí, portanto, por que a Casa do Jornalista/SJPMG engajou-se no movimento Slow Fashion: porque discutir políticas de sustentabilidade, direitos humanos e ética em todos os campos também faz parte de iniciativas sindicais, a fim de reafirmar para a sociedade valores profissionais da categoria, como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, conforme o inciso I do artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

A visibilidade do espaço onde vem acontecendo esses eventos – um elegante imóvel construído na década de 50 ao estilo bangalô, cujo endereço, historicamente, foi palco de vários movimentos sociais e políticos, em defesa das liberdades civis, em Minas e no Brasil — é emblemática, tendo em vista que em 2013, em assembleias gerais extraordinárias da categoria, um grupo de jornalistas foi contra a demolição da sede para a construção de um prédio em seu lugar e a favor de sua manutenção e requalificação. Ou seja, a preservação da Casa é uma iniciativa slow no campo do patrimônio, que prioriza identidades locais e patrimônios materiais e afetivos.

*Jornalista, professora de Ética e de Teorias do Jornalismo, professora de Análise de Discurso do Curso de Pós-Graduação em Marketing Político e Eleitoral (UNA) e da disciplina Mídia e Visibilidade da Pós-Graduação em Comunicação Pública (UNA), estudiosa do movimento Slow Fashion, ex-diretora do SJPMG, membro do grupo de jornalistas, arquitetos e intelectuais que defendeu projeto de preservação e requalificação da sede da Casa do Jornalista, mediadora dos debates do 1º Brechic e FRD-BH e parceira do Fashion Revolution Brasil.

 

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2 comentários

  1. mirian chrystus de mello e silva

    Artigo maravilhoso em que se unem ética, política e moda. Tudo interligado, sempre foi: agora é que estamos começando a ficar conscientes dessa conexão. Parabéns!

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