O jornalista que virou rainha, por Márcio Metzker 

Quando Fernando Collor era presidente da República, minha ex-namorada Lúcia Helena aceitou um convite para desenvolver o projeto gráfico de um jornal que o PC Farias estava montando em Alagoas para ameaçar o poder de imprensa do Pedro Collor. Investiram milhões de dólares no projeto e aquilo começou a ser investigado como parte do processo de impeachment do presidente. Peguei um avião e fui a Maceió com o intuito de convencer Lúcia Helena de que devia cair fora, porque a qualquer momento a Polícia Federal ia invadir a sede do jornal e prender quem estivesse lá dentro.

Mas fiquei curioso de conhecer o jornal Tribuna de Alagoas. Suas instalações eram o sonho de qualquer jornalista: a frota de carros de reportagem era zero km, o prédio novo, com projeto arquitetônico funcional criado por arquitetos em colaboração com editores. No terceiro andar, a Diretoria e o Comercial. No segundo, a Redação e a Fotografia. No primeiro, a pré-indústria (montagem e fotolito). No térreo, uma novíssima rotativa alemã e o enfardamento. Dali uma esteira levava os fardos de jornal diretamente à frota de caminhões.

O único problema era que o jornal não circulava. Todos trabalhavam diariamente, mas apenas três exemplares eram imprimidos: um para o presidente da República, outro para o PC Farias e outro para o presidente do jornal, o poeta Noaldo Dantas, figura emblemática das letras e da cultura nordestina. Alto, muito magro, óculos de grau forte, cabeleira grisalha rebelde, Noaldo era fundador de jornais e tinha composto um poema de amor a Alagoas tão famoso que era impresso nas contracapas dos cadernos distribuídos gratuitamente pelo governo para a rede escolar.

— Aqui sou como a rainha da Inglaterra — explicou-me Noaldo Dantas. — Não sei de nada, não decido nada, fico apenas sentado nesse trono de presidente.

O problema ali era que, depois de meses trabalhando sem imprimir e distribuir o jornal, os repórteres já iam ficando sem fontes. Ninguém queria dar entrevista para não vê-la publicada.

Noaldo dava de ombros e dizia que aquilo era uma experiência inédita em sua longa vida: um jornal que paga em dia, mas não circula. Ele adorava a companhia dos repórteres e tinha um misto de predileção e hospitalidade pelos profissionais que vieram de outros estados. Vivia convidando-nos para beber nos melhores bares da cidade e pagando a despesa, mas com uma condição: de que dirigíssemos o carro dele na volta, porque seu Ford Del Rey já estava todo amassado pelas barbeiragens que cometia. Fazia parte do trato estacionarmos em sua garagem na Pajuçara e pegar um táxi para voltar ao hotel na Jatiúca.

Noaldo Dantas era uma pessoa encantadora com suas tiradas inteligentes de crítico mordaz das oligarquias nordestinas, e nos contou uma história inesquecível: como tinha problema de alcoolismo, sua esposa não lhe permitia ter garrafa de bebida em casa. Quebrava todas que encontrava na pia. Então ele ficava às noites pegando a fresca na varanda de sua casa e vigiando a barraca de praia da Pajuçara para dar uma escapulida. Então pegava uma garrafinha de Coca-Cola, esgueirava-se até lá e comprava três doses de scotch. Voltava e ficava mamando na rede até o calor abrandar, para entrar em casa e dormir com a esposa.

Em 1989, no intervalo entre o primeiro e o segundo turno da eleição que foi vencida por Collor, Maceió praticamente não tinha movimento às onze da noite. Lá foi ele magrelão em sua bermuda folgada e camisa desfraldada ao vento comprar a dose diária de manguaça. A barraca era suntuosa, de piso reluzente, balcão envernizado, e tinha até piano de cauda. Havia apenas um casal se beijando no fundo e outro freguês mais afastado no balcão. O barman de gravata-borboleta o cumprimentou e perguntou se queria o de sempre. Noaldo confirmou, entregou a garrafa e o homem foi enxaguá-la e pegar o funil para medir as doses.

Nisso, Noaldo ouviu o barulho de uma porta de carro batendo na rua e viu um Chevette branco, do qual saiu um rapaz troncudo de baixa estatura. Desinteressou-se dele e olhou para o barman, que já estava dando aquela “chorada” tradicional nas doses. De repente, ouviu um barulho ao lado e viu que o rapaz recém-chegado tinha batido a coronha de um revólver 38 no balcão, desafiando:

— Por acaso aqui tem algum feladaputa que não vota em Collor?

Sobressaltado, Noaldo viu que o rapaz olhava diretamente para ele, intimando.

— E o seô, vota em quem?

Noaldo era eleitor de Lula, mas não era doido de admitir. Tergiversou:

— É… Fernando Collor está na frente nas pesquisas, e deve ganhar, não é mesmo? Talvez com um pouco de dificuldade por causa dos metalúrgicos de São Paulo…

— Pois eu saí arretado hoje, com esse tresoitão e com uma doze lá no carro, a fim de matar algum feladaputa que não vota em Collor. Alagoano tem obrigação de votar em Collor, não tem?

Noaldo escorregou o dinheiro para pagar a bebida, e teve que responder:

— É verdade. Se o próprio povo do Estado não apoiar o candidato, fica mal pra ele, não é?

O rapaz não afastava os olhos de cachorro cruel.

— Tô conhecendo seu sotaque. Seô não é alagoano não, é?

— Não senhor, eu sou da Paraíba.

— Eu também sou paraibano… — disse o jagunço.

“Graças a Deus”, pensou Noaldo. “Estou salvo”. E começou a se despedir:

— Já que somos conterrâneos, peço a sua licença porque…

— E de que família é na Paraíba? — interrompeu o atirador.

— Meu nome é Noaldo Dantas.

O rapaz fechou a cara e levantou a voz:

— Por acaso é parente de João Dantas, aquele filho duma rapariga que assassinou João Pessoa?

Noaldo arregalou os olhos e tentou contemporizar:

— Aquilo foi na década de 30. Nem eu tinha nascido, muito menos o senhor, que é tão jovem.

Aproveitando que o rapaz ficou irresoluto, ruminando a informação, Noaldo passou a mão na sua garrafinha e foi saindo de fininho. O rapaz esbravejou:

— Ei, ei! Escute, paraibano: tá se escafedendo por quê? Por acaso tá se borrando de medo?

Noaldo parou, fechou os olhos, criou coragem e deu meia-volta. Quase encostou a cara na cara do arruaceiro e perguntou firme, com um olhar feroz:

— E tu já viu paraibano ter medo?

— Nunca vi não senhor — titubeou o rapaz.

— Pois então passe bem! — encerrou o velho poeta, virando-lhe as costas e tomando o rumo de casa. “Ai, vou tomar um tiro nas costas! Ai, vai ser agora… Ai tô morto!” Foi pensando assim, controlando o tremor das pernas, até deixar a garrafinha de uísque cair e se quebrar no asfalto. Passou umas duas semanas abstêmio sem ter coragem de voltar à barraca.

Essa história já tem 32 anos. Nem Noaldo Dantas, nem Pedro Collor, nem PC Farias existem mais. Não tem muito tempo voltei a Maceió, aluguei um carro para rever os lugares que conhecera. Notei que a orla estava eriçada de arranha-céus de luxo, transformando num forno as áreas planas imprensadas entre eles e o morro. A Praia do Francês estava inviável com centenas de guarda-sóis impedindo a passagem das pessoas e do sol. O belo prédio da Tribuna de Alagoas, o jornal que nunca circulou, já se tinha tornado praticamente uma ruína. O trono da rainha da Inglaterra deve ter sido vendido barato num Topa-Tudo.

 

[21/1/21]

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5 comentários

  1. É, Marcio, esse Brasil. é uma lenda. Agora os trezoitão são apontados contra quem votou na esquerda. Boa hora pra se lembrar da velhavarua de sempre na política nodsa

    • Nem vão precisar de tresoitão. Basta manter a necropolítica de não comprar vacina, nem oxigênio, que vão dizimar nossas fileiras. Temos que ficar velhacos!

  2. Muito boa, Márcio! Mesmo já tendo lido lá no grupo, valeu à pena. ler outra vez. Texto e história deliciosos.

  3. Adorei a história! Márcio, você escreve bem demais.

  4. Olá Márcio Metzker, desejo votos de plenitude, saúde e alegria. Aquele abraço.

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