Em vídeo, jornalista demitida da Globo Minas denuncia assédio de chefe

A jornalista mineira Carina Pereira publicou vídeo no Instagram nesta quarta-feira 13/1 no qual denuncia assédio sofrido na Globo Minas, da qual foi demitida no dia 5. O assédio teria sido praticado por seu chefe durante cerca de dois anos. Ela conta que fez denúncias ao RH em 2019 e à ouvidoria da Globo, mas não adiantou e ela ainda foi prejudicada. Carina primeiro foi retirada da cobertura esportiva, depois teve dificuldades para realizar outras reportagens, sendo demitida na sequência.

Carina trabalhou sete anos na Globo Minas. Durante dois anos apresentou o Globo Esporte, período em que sofreu o assédio relatado detalhadamente no vídeo de 13 minutos, primeiro de colegas homens, depois do seu chefe. Ela não cita o nome do chefe, que já foi demitido pela Globo Minas.

“Enfrentei muito preconceito por ser mulher e principalmente por não ser desse meio. No começo eram piadinhas dos colegas, tratamento diferenciado porque eu não era dali, só que depois começou com o meu chefe. Falava: ‘Ah, Carina consegue essa exclusiva porque é mulher, Carina tem o que você não tem, Carina oferece o que você não oferece…’ Quando era um colega, eu retrucava, quando era o chefe, não, porque era alguém que eu respeitava, admirava, e eu ficava calada. E as coisas foram piorando”, conta Carina no vídeo.

Ela relata casos, conversas e situações vividas na emissora, como uma viagem, em 2018, quando passou três horas trancada no banheiro, com vergonha, depois de passar por assédios do chefe. Juntamente com outros sete colegas, ela denunciou à empresa o assédio do chefe. Além de nada ter sido feito, ela conta que foi obrigada pela nova chefia a se reunir com o antigo chefe e fazer as pazes com ele.

“Primeiro, a gente foi no RH, não adiantou muito, aí a gente fez uma denúncia na ouvidoria da empresa. Nada aconteceu. Eu fui mudada de horário, de função. Para mim, as coisas pioraram. Eu era a única mulher dessa galera que denunciou e sinto que fui a única prejudicada em tudo.”

A jornalista cita entre os prejuízos, além de troca de horário e função, dificuldades que começaram a surgir na realização do seu trabalho, como projetos não colocados em prática. Ela conta que teve um dia muito ruim, em que achou que estava doente, com depressão, e que fez terapia.

Em 2020, com a pandemia, ela passou a trabalhar em home office, tirou duas férias, procurou emprego, tentou até mudar de profissão, porque não queria voltar, mas não podia pedir demissão, porque tinha dívidas para pagar.

“Voltei com a certeza de que tinha passado do meu limite, e inacreditavelmente as coisas pioraram, tive condições de trabalho piores”, conta Carina. “Descobri que ali não dava mais.” “Estou tendo oportunidade de recomeçar, do jeito que eu quero.”

Nota da Globo

Questionada pelo SJPMG sobre quais providências tomou para apurar a denúncia feita por oito jornalistas, entre eles a repórter demitida, e também sobre os motivos do desligamento da jornalista, a Globo, por meio de sua assessoria, enviou a seguinte nota.

“A Globo não tolera comportamentos abusivos em suas equipes e todo relato de assédio é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A empresa não comenta questões relacionadas a Compliance, pois, de acordo com o Código de Ética do Grupo Globo, assume o compromisso de investigar toda e qualquer denúncia de violação de regras, assim como o de manter sigilo dos processos, não fazer comentários sobre as apurações e tomar as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador. Mesmo nas hipóteses de desligamento, as razões de Compliance não são tornadas públicas. A empresa é muito criteriosa para que os estilos de gestão estejam adequados aos comportamentos e posturas que a Globo quer incentivar e para que as medidas adotadas estejam de acordo com o que foi apurado.”

Denuncie o assédio

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais presta toda solidariedade à jornalista demitida e demais vítimas de assédio e conclama todos os jornalistas a não aceitarem nenhum tipo de assédio, nem sexual e nem moral. Em caso de qualquer ocorrência, é importante que o Sindicato seja acionado para que apurar o ocorrido. O setor de Mediação das Relações do Trabalho do Ministério da Economia tem servidores especializados em lidar com esse tipo de situação e casos semelhantes já foram levados pelo Sindicato para serem discutidos lá, com sucesso.

As denúncias podem ser feitas por email (sindicatodosjornalistasmg@gmail.com) ou pelo zap (31) 9-8239-4231. É necessário que o denunciante se identifique, mas suas informações são mantidas em sigilo.

Por fim o Sindicato também lamenta que a denunciante – que teve a coragem de fazer a denúncia sem pedir anonimato para a ouvidoria da empresa – tenha sido penalizada, no lugar de ter sido acolhida, e informa que já acionou o RH da empresa solicitando uma reunião para discutir os desdobramentos desse caso.

“O que aconteceu com a Carina tem nome e sobrenome e deve ser combatido: machismo e assédio. Que bom que a repórter, competente e querida, tenha tido a coragem de expor essa situação. A gente sabe que não é fácil, mas sua atitude ajuda a dar visibilidade a essa prática perversa que ainda reina no ambiente de trabalho, inclusive o jornalístico, que em tantos casos semelhantes denuncia sempre”, disse a presidenta do SJPMG, Alessandra Mello.

Veja o vídeo.

 

[13/1/21]

 

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