Aquela foi por pouco, por Cláudio Arreguy

Nestes tempos em que as fake news viraram moda, substituíram o termo mentiras e até se transformaram em política de estado, desfiadas inclusive em pronunciamento na ONU, vem-me à memória o dia, lá se vão 43 anos, em que por pouco não pespeguei um exemplar de informação falsa. Fui salvo do vexame por um chefe compreensivo e bem-humorado.

Era então estagiário na sucursal mineira do Jornal do Brasil. Vivia o quarto mês da fascinante escalada que me prende até hoje à busca de notícias ‒ as verdadeiras, claro. Certa tarde de domingo, em setembro de 1977, preparava-me para cobrir à noite a final do Campeonato Brasileiro Masculino de Basquete, todo ele disputado no velho ginásio do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte.

Jogariam Palmeiras x Flamengo, que já haviam se enfrentado na rodada de abertura, com surpreendente vitória dos rubro-negros, comandados por Valdir Boccardo (campeão mundial pelo Brasil em 1959 no Chile), que tinham Peixotinho, Sapatão e Charuto. Na véspera, haviam eliminado o Vasco. Os palmeirenses, de Cláudio Mortari, apresentavam Carioquinha, Ubiratan, Gílson e Oscar. Na noite anterior, haviam superado o Amazonas-Franca, de Hélio Rubens, Fausto, Adílson, Zé Geraldo e Robertão.

Eduardo Simbalista, o editor, me avisou que não prenderia um teletipista nem mais ninguém na redação e achava melhor eu passar a matéria do jogo pelo telex. O fotógrafo Waldemar Sabino (o saudoso Mazico) mandaria foto feita nos cinco primeiros minutos de jogo e iria embora, como era praxe em partidas noturnas. A chave da sucursal ficaria na portaria, onde eu deveria pegá-la e deixá-la depois. Simba me levou em seguida à salinha de transmissão, onde havia duas máquinas da Olivetti. Numa, gravava-se a fita perfurada que, introduzida na outra, um ponta a ponta, era transmitida para a sede no Rio. Para ganhar tempo, ele me recomendou que abreviasse os procedimentos e escrevesse diretamente no ponta a ponta.

E me ensinou como acionar a sede do JB, manipular o teclado, dar os comandos certos, enviar o texto e desligar a geringonça. “Faça um teste, só não envie”, propôs-me. Mãos à obra, criei um rápido texto, dizendo que o Flamengo acabava de se sagrar campeão brasileiro ao vencer o Palmeiras por XXX a XXX, adicionando detalhes do ainda fictício jogo etc. Satisfeito, levei à sala do Simba a cópia recortada do texto (ficava outra, por baixo do carbono, na máquina). “Muito bem”, respondeu o chefe.

Minutos depois, o velho e saudoso teletipista Willer, jornalista das antigas, que trabalhara na France Presse e era resmungão com quase tudo que dissesse respeito a modernidade, chegou com outro recorte de telex à sala do Simbalista. “O Rio está querendo a foto do título do Flamengo”, resumiu em tom entre a sisudez e o deboche. Quase dei um salto da cadeira, enquanto o editor me fuzilava com o olhar e corria para a salinha de transmissão. Até hoje, mais de quatro décadas passadas, não sei como, mas fui fundo na “aula intensiva” de telex e acabei enviando o texto fake. Eu que, nos meus então 21 anos, mal sabia o que era fake e ainda engatinhava em news.

“O jogo será às oito horas”, escreveu o Simba, curto e grosso. “Mas chegou texto daí dando conta de uma vitória do Flamengo”, devolveu o teletipista do outro lado. “Deve ter sido um infeliz que escreveu isso”, mandou de volta o chefe, antes de se virar para mim com uma careta, tipo “Como é que você me faz uma destas!?”

De volta à salinha dele, Simbalista retornou ao humor sarcástico característico: “Pelo menos você viu como se transmite”. E rimos bastante do quase fake news criado por um aprendiz de repórter, na ânsia de aprender os segredos da profissão. Tanto o homem da salinha quanto o do telex e o das fotos haviam trabalhado na sucursal com meu pai, João Batista de Assis Corrêa, também jornalista, que pediu ao diretor da sucursal, Acílio Lara Resende, e ao Simba que me dessem o estágio.

Eu me formei em dezembro daquele ano e em março de 1978 seria o último dos contratados do Simbalista para o quadro de repórteres do JB em Minas ‒ ele iria no mês seguinte para a Rede Globo local e de lá para a sede da emissora no Rio.

O tempo passou, acabei me transferindo para a sede em 1985 a convite de João Máximo, fiquei no JB até dezembro de 1993 e aprendi a dominar o telex e os truques para ganhar tempo bastante cultivados por brasileiros em competições internacionais: em vez de gravar, ir direto ao ponta a ponta dizendo que só iria fazer uma consulta e produzir ali mesmo a matéria, por exemplo. Usei muito a tarjetinha internacional cor de rosa, fornecida pela Embratel, que permitia ao jornalista usar o telex em qualquer agência de correio ou Centro de Imprensa pelo mundo. E posso garantir a vocês: sempre transmiti o que de fato ocorreu.

Só para não passar batido: quem ganhou o jogo foi o Palmeiras, pela primeira e única vez campeão brasileiro naquele 1977.

 

[9/10/20]

 

Veja também

Ah, como almejo o poder!, por Déa Januzzi

Nunca dei muita importância ao poder, mas outro dia descobri o quanto ele é importante. ...

2 comentários

  1. Oi, Cláudio Arreguy, achei legal demais essas lembranças. Curti bastante. Abraços

  2. Parabéns pela interessante crônica em primoroso texto, meu brilhante ex-aluno Cláudio Arreguy , na FAFI/ BH..Bos tempos! Abração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *