Terceira aula do Curso Livre de Jornalismo disseca cobertura do governo Bolsonaro

As relações entre a política e o jornalismo foram reviradas nas últimas décadas. Há uma tendência à bajulação do leitor e o enquadramento caricato e maniqueísta dos políticos pelo jornalismo, o que enfraquece todo o sistema e banaliza a violência. Esse quadro se torna mais grave com as redes sociais, que oferecem ao leitor informações individualizadas, escolhidas pelos algoritmos, conforme o gosto de cada um.

Esses comentários foram feitos nesta segunda-feira 21/9 pelo cientista político Bruno Reis ao participar da terceira aula do Curso Livre de Jornalismo, que teve como tema “A gestão Bolsonaro: da gripezinha ao genocídio” e contou também com a participação da jornalista e pesquisadora Eliara Santana. A coordenação é do jornalista e professor João Carlos Firpe Penna.

Esta e as demais aulas do curso estão disponíveis nas redes sociais do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Jornalista e doutora em Linguística e Língua Portuguesa, pesquisadora sobre fake news, Eliara analisou a cobertura dada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, ao presidente Jair Bolsonaro desde sua campanha eleitoral até hoje. Ela é autora do Boletim JN, no qual faz análise crítica das edições diárias do Jornal Nacional.

Eliara dividiu a cobertura do JN em quatro fases distintas: a primeira foi a da eleição de 2018, quando Bolsonaro foi o “candidato possível”; a segunda, no primeiro ano do seu mandato, quando foi tratado como “presidente não controlável”; a terceira, nos primeiros meses da pandemia, quando houve a “desconstrução do mito”, e a quarta, a partir de 18 de julho, quando o presidente se apresenta acompanhado de todos os seus ministros e parece haver um grande acordo.

Segundo Eliara, a edição do JN de 24 de abril foi uma “edição histórica”, na qual há uma grande guinada na cobertura e acaba o “silenciamento positivo” do presidente. É o dia em que o ministro Sérgio Moro deixa o governo como herói. O primeiro bloco do jornal tem 55 minutos sem interrupção. Há dois meses, porém, o JN deu uma nova guinada.

Bruno Reis disse que a banalização da violência na cobertura jornalística teve “efeito corrosivo” sobre a política brasileira. Ele fez distinção entre a cobertura crítica e a cobertura cínica e disse que a cobertura cínica, demagógica, deixou muito baixa a imunidade do sistema político, abrindo caminho para candidatos aventureiros e predadores.

Embora considere delicada a situação política de Bolsonaro e relativamente baixa sua popularidade neste momento do seu mandato, Bruno Reis ressaltou que os novos elementos que o presidente trouxe para a política brasileira vão demorar a desaparecer. Segundo o cientista político, o modus operandi das milícias foi legitimado por sua associação com o poder.

“O Caso Marielle é o calcanhar de Aquiles do presidente Bolsonaro, sua base de apoio e organizacional está vinculada às milícias”, analisou o professor titular do Departamento de Ciência Política da UFMG e diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

O Curso Livre

O Curso Livre de Jornalismo 2020 tem como tema geral “A arte de humanizar o jornalismo” e quatro subtemas, cada um abordado em uma aula: 1) A dor da gente que não sai no jornal; 2) Como cobrir economia para a dona Maria; 3) A gestão Bolsonaro: da gripezinha ao genocídio; 4) Reflexões sobre a cobertura jornalística na pandemia.

Realizado pelo SJPMG e pela Casa do Jornalista, o Curso Livre de Jornalismo é ministrado por João Carlos Firpe Penna, que em cada aula recebe um ou mais convidados. Ele acontece online nas redes sociais Facebook e YouTube, é gratuito e dará certificado aos participantes que tiverem 50% de presença ou mais.

Na primeira parte da aula, João Carlos falou sobre os principais desafios da cobertura política, bastidores do poder e nos diversos tipos de entrevistas. Idealizador do curso, ele foi professor de jornalismo na PUC Minas durante 29 anos e trabalhou em diversos veículos e assessorias.

A quarta e última aula está marcada para a próxima segunda 28/9, das 14h às 16h. Quem não se inscreveu nas primeiras aulas também pode participar, quem já se inscreveu não precisa se inscrever novamente. Os inscritos recebem um link para assistir à aula e podem fazer perguntas pelo chat.

(Na foto, da esquerda para a direita: Eliara Santana, João Carlos e Bruno Reis.)

[21/9/20]

 

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Um comentário

  1. Quando é que o curso vai destacar a cobertura da mídia sobre a enorme roubalheira de prefeitos e governadores, de norte a sul do país, ocorrida com desvios de recursos públicos destinados a montagem de hospitais de campanha, compras de epi e medicamentos para combater a covid-19?

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