Um depoimento de quem viveu a Abril do auge da editora à crise que Roberto Civita anteviu

O aviso de Civita 

Cláudia Giudice

“Agosto, mês do cachorro louco.” Esse foi meu primeiro pensamento quando há quatro meses recebi por WhatsApp as 148 páginas da relação de credores do Grupo Abril. A empresa em que trabalhei por 23 anos tinha demitido 804 funcionários, encerrado a operação de onze revistas, seus respectivos sites e um portal, e acabara de pedir recuperação judicial por causa de uma dívida de 1,6 bilhão de reais. Meu segundo pensamento foi em Roberto Civita. O que meu patrão, falecido em maio de 2013, diria sobre o pedido de recuperação judicial? O que ele, que sempre fez questão de pagar salários rigorosamente em dia, pensaria sobre o plano de recuperação judicial que a nova direção propôs aos demitidos, a maioria com muitos anos de serviços prestados à casa? Será que ele colocaria a mão no bolso para arcar com os 90 milhões de reais da dívida trabalhista? Será que aprovaria a venda da editora pelo simbólico valor de 100 mil reais, e mais sua dívida bilionária, ao advogado e empresário carioca Fábio Carvalho, de 41 anos, um especialista na compra e venda de empresas em dificuldades? Leonino de 9 de agosto, Civita praguejaria contra o destino que o tirou de cena precocemente? Reclamaria dos filhos, que nunca compartilharam com ele a paixão por revistas? Xingaria os executivos salvadores da pátria que ele mesmo contratou? Lamentaria as escolhas nos investimentos em tecnologia e e-commerce? Ou apenas repetiria, resignado, o bordão “eu avisei, mas ninguém me deu ouvidos”?

Sim, Roberto Civita, o rei das bancas no Brasil, avisou. No tradicional almoço de Natal da empresa, do glorioso ano de 2010, quando a editora arrecadou 1 bilhão de reais de receita de publicidade on e off-line e vendeu mais de 190 milhões de exemplares de revistas, Civita pegou pesado. Eu havia sido promovida ao cargo de diretora superintendente de um grupo de mais de vinte marcas e estava eufórica. No lugar de lustrar nossos egos, ele deu parabéns protocolares e mandou uma voadora no pescoço dos executivos presentes. “Façam brindes. Aproveitem este almoço e esse momento. Ele nunca mais se repetirá. O negócio ficará muito difícil nos próximos anos. Temos que correr para mudar a história da Abril.” A fala visionária não era um insight. Ela se baseava no conhecimento dele sobre o mercado de mídia norte-americano, mais maduro e avançado do que o nosso. Roberto Civita sabia que as coisas não estavam fáceis para os parceiros de lá, que enfrentavam a crise econômica e os primeiros efeitos da mudança do modelo de negócio de comunicação impressa. “Temos que migrar para o digital”, repetia ele, um apaixonado por papel couché pintado de tinta.

O tempo parece curto demais para explicar o que aconteceu com a árvore verde e com o país onde ela cresceu. Vale olhar pelo retrovisor da história. Em 2010, a economia brasileira crescia 7,5% ao ano. A taxa de desemprego era de 6,7%. Lula, atualmente preso, era o cara na opinião de Barack Obama. Veja, inimiga do ex-presidente, vendia 1,2 milhão de exemplares por semana e tinha o CPM (o custo de publicidade por mil exemplares) mais caro da imprensa brasileira. Sou suspeita para julgar. Fazia parte do time e cometi erros. O maior foi me calar quando não devia. Mas, até hoje, acho que a estratégia fazia sentido. O caminho para migrar para o digital era sustentar o negócio tradicional e investir em tecnologia e novas plataformas. Naquela época, o feijão com arroz da empresa era farto – os gastos e desperdícios também. Os visitantes que chegavam ao Novo Edifício Abril davam de cara com o busto do fundador, Victor Civita, a missão da empresa e um enorme banner com o logotipo de 54 marcas. Elas eram líderes em 21 dos 25 segmentos em que atuavam, falando com 27 milhões de brasileiros das classes A, B e C. O papo já era on e off-line. A Abril tinha 47 sites e portais e 41 milhões de internautas, que naquela época ainda digitavam URLs. Acredite se puder, ganhava-se dinheiro com mobile, por meio de canais de SMS e MMS. Uma pilha de aplicativos foi lançada quando o negócio virou moda. Vendia-se patrocínio. Veja foi a primeira e maior revista brasileira no iPad (ainda é). A Abril faturou ao criar eventos, como Prêmio Claudia, a Feira Guia do Estudante e os Camarotes da Contigo!. Também apostou na direção certa ao licenciar produtos de marcas como Capricho, que foi bem-sucedida na transição do papel para o digital. Nas recém-nascidas redes sociais, as marcas Veja, Contigo! e Capricho eram soberanas.

Clique AQUI para ler a íntegra na revista piauí.

(Crédito da foto: piauí / Getty Images.)

[22/1/20]

 

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