Foto da tempestade em BH vira retrato do trabalho informal no Brasil

Entre as imagens das chuvas em Belo Horizonte na noite de terça-feira 28/1 que impressionaram o país e o mundo, uma delas viralizou ao mostrar um entregador do iFood tentando atravessar, a pé, o rio que corria na esquina da Avenida Prudente de Morais com Rua Joaquim Murtinho, no Bairro Cidade Jardim. A foto (acima) foi feita pelo repórter fotográfico Alexandre Mota, do jornal O Tempo.

Publicada exatamente às 22h25, a foto tinha, às 15h40 desta quinta 30/1, 1.958 likes no Instagram pessoal do fotógrafo. No mesmo horário, tinha sido retuitada 151 vezes e recebido 1.000 curtidas no Twitter e 452 comentários no Instagram do jornal.

Com água até os joelhos, o homem que segurava uma vara na mão direita e carregava o baú de alimentos característico nas costas tornou-se motivo de espanto, admiração e críticas, provocando discussões acaloradas nas redes sociais. Irresponsabilidade do entregador? Insensibilidade de quem fez o pedido numa hora como aquela? Manipulação da imagem, como é comum na internet? Exemplo da nova exploração do trabalho pelas empresas de tecnologia no século XXI?

O certo é que a imagem, além de mostrar, como muitas outras, o drama vivido pelos belo-horizontinos nas chuvas torrenciais deste janeiro de 2020, acabou por retratar também o trabalho exaustivo e arriscado dos milhões de brasileiros que sobrevivem hoje na informalidade, condição que prolifera como praga desde a reforma trabalhista do governo golpista Temer.

Contribuiu para a viralização da foto a decisão da juíza Shirley Aparecida de Souza Lobo Escobar, da 37ª Vara do Trabalho de São Paulo, no mesmo dia, que julgou improcedente o pedido de vínculo empregatício dos trabalhadores do iFood e do Rapiddo com as duas empresas do grupo Movile. Em 2017, a Movile recebeu um aporte de US$ 82 milhões do empresário Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil.

“É uma foto fantástica, uma imagem muito forte, muito bonita, informativa”, comenta o jornalista Daniel de Cerqueira, editor de Fotografia de O Tempo. “Ela mostra a escravidão contemporânea a que estão submetidos esses meninos que fazem entregas, sem qualquer suporte da lei. Se acontecesse alguma coisa a esse trabalhador, se ele fosse levado pela correnteza, não receberia nada, sua família também não”, critica.

Daniel imagina que a foto viralizou porque as pessoas se indignam com essa situação.

“O fotógrafo também estava trabalhando, mas estava amparado pela CLT e pela empresa. Aquele homem, não”, compara o editor. “Esse pessoal tem que trabalhar nas condições mais adversas e corre até risco de morrer para entregar um sanduíche.”

Trabalho intenso

A cobertura das chuvas tem dado muito trabalho extra para os jornalistas mineiros. Se começa a chover na hora do fechamento, como aconteceu na terça 28, os jornais têm que mudar tudo: capa, matérias, diagramação, fotos.

“Quem está na redação, volta pra rua, quem está na rua, fica. É um trabalho muito desgastante, muito intenso”, informa Daniel, um carioca que mora em BH há vinte anos e trabalha no O Tempo há oito.

Ele explica que, para o fotógrafo especialmente, é um trabalho muito ingrato.

“A água sobe numa velocidade muito grande. Quando o fotógrafo chega, a melhor imagem já passou. Ele toma chuva, às vezes danifica o equipamento, e o flagrante vem de um celular, de um morador”, conta o editor. “Como editor, morro de pena do fotógrafo, mas meu compromisso é com o leitor. É muito difícil estar no lugar certo, na hora certa.”

A foto 

Alexandre Mota estava. Ele conta que chegou à Prudente de Morais — ponto frequente de alagamento em Belo Horizonte — com repórter e motorista, no carro jornal, quando a chuva ainda estava no começo. Subiu ao estacionamento do prédio que fica na esquina com Joaquim Murtinho para ter uma visão panorâmica da avenida e foi surpreendido com a subida repentina da água — provavelmente em consequência do transbordamento da represa do Santa Lúcia.

Sem poder deixar o prédio, Alexandre começou a fotografar a enchente dali.

“A Prudente de Morais virou um rio veloz, passava de tudo, os objetos mais diversos, grandes, como se fossem barquinhos de papel”, conta o repórter fotográfico, profissional desde 1997, com passagens pelo Hoje em Dia e agências, há um ano no O Tempo. “De uma hora pra outra ficou tudo alagado, inclusive um ponto de gasolina que fica na esquina do lado e no qual o carro do jornal tinha estacionado.”

Foi nesse momento que Alexandre avistou o entregador de iFood no meio da inundação. Ele conta que a cena não durou mais do que um minuto. O entregador amarrou a moto e tentou atravessar a correnteza a pé, usando a vara para explorar o caminho e se firmar, mas desistiu, voltou e saiu arrastando a motocicleta, que parecia ter sido danificada pela água. O repórter fez uma sequência de fotos, escolheu uma e mandou para o jornal, que a publicou no portal e nas redes sociais.

Só quando acordou no dia seguinte é que Alexandre percebeu a repercussão da foto e a publicou no seu Instagram.

“Realmente a imagem é impactante, um cara exposto às intempéries, sem respaldo nenhum. Ela calhou bem na nossa economia atual, em que as pessoas estão vivendo de bicos”, comenta Alexandre.

“E as pessoas estão ávidas para falar, qualquer fagulha vira esse estardalhaço, incendeia muito rápido”, acrescenta o repórter que só teve uma experiência anterior de fotografia que viralizou. Foi em Brumadinho, há um ano, quando uma das suas duas câmaras caiu no chão e rolou, ficando toda suja de lama. Ele fez uma foto e a publicou em rede social.

Diante da repercussão da fotografia de terça-feira passada, a redação de O Tempo está agora à procura do entregador anônimo cuja imagem está correndo o mundo. “Estamos tentando achá-lo para contar sua história”, diz Alexandre.

(Crédito da foto: Alexandre Mota / O Tempo.)

[30/1/20]

 

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