Jornalistas de Alagoas dão mais um exemplo e criam seus próprios veículos

Os jornalistas de Alagoas, que em junho e julho passados deram um exemplo de luta por seus direitos, barrando com uma greve a redução ilegal dos seus salários, dão agora outro exemplo: o de busca de alternativas de sobrevivência para a profissão. Eles estão criando veículos dos quais os donos são os próprios trabalhadores.

Nesta quarta-feira 30/10 foi lançada oficialmente em Arapiraca, na região central do estado, a TV Liberdade AL, o terceiro empreendimento de jornalistas alagoanos. Ela se soma ao Acta, coletivo de comunicação também criado após a greve, e à Tribuna Independente, fundada há 12 anos, ambos na capital, Maceió.

Greve vitoriosa

A greve de junho e julho foi um sucesso – de união, de solidariedade, de apoio da sociedade e na justiça. Ela paralisou durante nove dias os três grandes grupos de comunicação de Alagoas (TV Gazeta, TV Pajuçara e TV Ponta Verde e seus portais, além do semanário Gazeta de Alagoas). Durante o movimento, os trabalhadores receberam inúmeras manifestações de apoio da população e fizeram uma campanha de doação de sangue denominada “Meu sangue pelo jornalismo”.

O TRT da 19ª Região julgou o dissídio coletivo da categoria e por unanimidade considerou ilegal a redução salarial de 40% que os patrões queriam impor. Concedeu ainda reajuste de 3% nos salários, para reposição da inflação, pagamento dos dias parados e garantia de estabilidade no emprego por três meses.

Os patrões, no entanto, deram novos exemplos de desrespeito à lei, aos trabalhadores e à população: descumprindo a decisão judicial, a TV Pajuçara, afiliada da Rede Record, dispensou nove grevistas e acabou com seu jornal noturno; a TV Gazeta, afiliada da Rede Globo e pertencente às Organização Arnon de Melo (OAM), da família do ex-presidente Fernando Collor, dispensou 15 grevistas e fechou sua sucursal em Arapiraca. O interior do estado ficou sem cobertura jornalística.

Ao todo, segundo o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), foram demitidos 35 jornalistas após a greve, 15 na TV Pajuçara e 20 na OAM.

As empresas de comunicação alagoanas, assim como as brasileiras em geral, passam por profundos problemas financeiros, decorrentes das mudanças tecnológicas provocadas pela internet, somadas à má administração. Acostumadas a monopólios e à farta verba publicitária dos governos com os quais sempre foram comprometidos, historicamente, entraram numa crise sem fim nas últimas décadas, que já levou à falência, por exemplo, um grupo gigante como a Editora Abril.

Empresas falidas e empresários ricos, parece ser a regra não apenas em Minas Gerais. A OAM, maior grupo alagoano, está em processo de recuperação judicial, concedido pela Justiça, e, segundo notícia recente do Uol, apresentou ao administrador judicial uma dívida trabalhista, com fornecedores e bancos de R$ 217 milhões. Há um ano, o jornal do grupo, a Gazeta de Alagoas, deixou de circular diariamente e tem agora apenas uma edição semanal.

Tribuna Independente

O único jornal diário de Alagoas atualmente é a Tribuna Independente, impresso em Maceió, em formato standard, cuja proprietária é uma cooperativa de jornalistas e gráficos.

A Tribuna é o mais antigo e bem-sucedido exemplo de veículo alagoano dirigido pelos próprios trabalhadores. Fundado por PC Farias, o tesoureiro de campanha de Collor, e um dos motivos de conflito do ex-presidente com seu falecido irmão Pedro, o jornal foi à falência depois que PC foi assassinado em 1996, em circunstâncias misteriosas. Jornalistas e gráficos decidiram ocupar o jornal e mantê-lo funcionando. Na sequência fundaram uma cooperativa, que adquiriu o parque gráfico, quando ele foi a leilão.

“Hoje somos 60 cooperados, entre gráficos e jornalistas”, informa o diretor administrativo e ex-presidente da cooperativa Flávio Peixoto, também diretor do Sindjornal. “Incluindo empregados e terceirizados, o jornal gera renda para umas cem famílias”, acrescenta.

A cooperativa não conseguiu comprar o prédio do jornal, mas comprou um terreno no Distrito Industrial de Maceió e montou lá seu parque gráfico. A redação funciona em salas alugadas num centro empresarial no Bairro Serraria, na parte alta da capital – numa das salas vai funcionar a TV web que o jornal pretende inaugurar em breve.

Com 4.500 exemplares diários, em média, e 8 mil no fim de semana (a Tribuna tem uma edição para sábado e domingo e não circula na segunda-feira), o jornal impresso dos jornalistas alagoanos é vendido em bancas e entregue a assinantes. Como cooperativa, os trabalhadores – com exceção dos celetistas – não têm salários nem demais benefícios trabalhistas, com 13º, e sim retiradas mensais, explica Flávio. “No final do ano fiscal, em março, se existe sobra, ela é dividida igualmente”, informa.

O recolhimento do INSS, porém, está em dia, o período de descanso de trinta dias, com retirada, já foi adotado e a cooperativa busca agora uma alternativa para o plano de saúde.

“A mídia tradicional não acompanha a evolução e o jornalista é empurrado para buscar alternativas”, ressalta Flávio. “A cooperativa é uma possibilidade. Estamos cumprindo nosso papel de gerar renda para os trabalhadores e suas famílias”, acrescenta.

Ele informa que a cooperativa estuda a adoção da assinatura digital e a criação de novos produtos. Um deles já foi lançado, em setembro: uma revista especializada em economia, com versões virtual e física. Além disso, a gráfica presta serviços para terceiros, o que aumenta seu faturamento. “Temos altos e baixos, mas a experiência é muito gratificante”, resume o jornalista.

Coletivo Acta

Os jornalistas de Alagoas têm diversas motivações para fundarem seus próprios veículos de comunicação, e uma delas é o apoio da sociedade. Muitos dos demitidos são figuras populares; durante a greve, receberam manifestações de solidariedade e depois vêm ouvindo comentários de reprovação às demissões e de estímulo.

“Não assisto mais a esses canais” e “Você está fazendo muita falta” são frases ouvidas com frequência nas ruas por demitidos como Oscar de Melo. Ele era apresentador do Cidade Alerta, um dos programas de maior audiência e maior faturamento da afiliada da Rede Record. Agora está empenhado em colocar no ar a programação do coletivo Acta, formado por jornalistas dispensados das tevês Pajuçara e Gazeta.

“Tenho 25 anos de profissão, trabalhei em todas as rádios e televisões da Maceió”, conta Oscar. “A greve foi um momento histórico para os jornalistas alagoanos, não nos calamos.”

Ele observa que todos sabiam das possíveis consequências da greve e começaram a se preparar para as demissões. Jornalistas das duas emissoras conversaram sobre sua união para produzir conteúdos para internet, inclusive uma programação ao vivo diária para ser veiculada nas redes sociais.

“O potencial jornalístico é muito grande, porque somos respeitados. A resposta da população é ótima, há muito expectativa e já tivemos várias propostas comerciais”, informa Oscar.

Ele comenta que os jornalistas demitidos estão se reinventando e que “a reinvenção é um processo muito prazeroso”. A ideia é fazer jornalismo para novas plataformas, disponibilizando conteúdos que podem ser acessados a qualquer momento, não apenas no horário de exibição, como na TV. “Queremos quebrar paradigmas”, enfatiza Oscar.

No novo modelo planejado pelo coletivo Acta – cujo nome remete ao Acta Diurna, o primeiro jornal de que se tem conhecimento, que era afixado em muros, na Roma antiga – serão os próprios jornalistas os responsáveis por atrair o público.

“Apostamos na nossa credibilidade como nosso grande diferencial. Somos jornalistas sérios, que as pessoas param para ver e ouvir”, ressalta Oscar. “Vamos mostrar que existe vida fora da grande mídia, fazendo jornalismo independente, de qualidade, sem rabo preso”, acrescenta. “Depois de tanto tempo acomodados na zona de conforto, não vemos a hora de ir ao ar. Estamos extremamente motivados.”

No domingo 27, o coletivo Acta transmitiu ao vivo a partida final do campeonato alagoano da segunda divisão, em Palmeira dos Índios, que foi ao ar também pela TV Educativa local. O feito foi comemorado pelo público e pelos jornalistas com muita emoção.

TV Liberdade

O uso da internet para fazer jornalismo sem depender dos patrões, considerados “atravessadores da notícia”, é a motivação também da TV Liberdade AL, formada por quatro jornalistas e quatro radialistas de Arapiraca, município de 250 mil habitantes localizado bem no centro de Alagoas. Eles também foram dispensados após a greve, e a cidade, que tradicionalmente cumpre o papel de fazer circular informações entre o Agreste, o alto e o médio sertão e o baixo São Francisco, além da capital, ficou de sem um veículo de comunicação sequer. “Cadê o noticiário do interior?”, é a pergunta frequente desde o fechamento da sucursal da TV Gazeta.

As primeiras veiculações foram no Instagram, primeiro durante o Festival da Primavera de Viçosa, nos dias 11, 12 e 10 deste mês. “Quando lançamos a TV Liberdade, o número de seguidores saltou de 22 para 90 mil”, conta o jornalista Tony Medeiros, também diretor do Sindjornal. Na semana seguinte, foi a vez da TV Liberdade AL acompanhar a Feira de Supermercados e Distribuidoras, em Arapiraca (foto). Em média as postagens têm 33 mil seguidores. “Os números são muito bons, porque só está vendo quem tem interesse em ser empreendedor”, avalia Toni.

Já houve também uma transmissão em Penedo, às margens do Rio São Francisco, durante um evento de “construção de líderes”, e nesta quarta-feira 30 o canal foi lançado oficialmente, com coquetel, bate-papo e apresentações de artistas que, durante a greve, já tinham prestado sua solidariedade ativa aos jornalistas. O lançamento foi feito na Comedoria, parceira do coletivo, com transmissão pelo Instagram e pelo YouYube, das 19h30 às 22h.

Segundo Tony, a TV Liberdade continuará com programas jornalísticos e esportivos transmitidos diretamente da redação, localizada no espaço do Poeta (sigla do Programa de Oportunidades Econômicas Tecnologia nas Américas), no Bairro Cacimbas, até que a grade de programação seja implantada em meados em novembro. Parceria com o coletivo Acta possibilitará a troca de conteúdos entre capital e interior.

“A intenção é ter uma grade completa, das 5h às 22h”, revela o jornalista. Um programa de música regional fará parte da grade e haverá também muito conteúdo educativo. “Estamos montando um estúdio e os jovens poderão produzir seus próprios vídeos, em parceira com o Poeta”, informa Tony.

“A TV Liberdade significa liberdade não só para os jornalistas, mas também para a população de Arapiraca e de todos os municípios da região. O que a gente quer fazer é o que se propôs desde o começo: jornalismo.”

#LutaJornalista

#SindicalizaJornalista

[31/10/19]

 

Veja também

Mudanças na Rede Minas de Televisão

O ambiente na Rede Minas é de tristeza e desânimo. Ontem foi o último dia ...

Um comentário

  1. Muito boa a reportagem. Um completo relato de como o jornalismo alagoano está se reinventando, por meio de bravos jornalistas que tiveram coragem de lutar com bravura e resistência contra a tentativa dos patrões, encastelados nas grandes empresas de Comunicação, de desconstruir a nossa profissão; de aviltar nossos salários, com proposta de redução de 40%; de desvalorizar nosso mercado de trabalho. Lutamos como jornalistas, vencemos várias batalhas, sobrevivemos e continuamos lutando.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *