Jornalismo precisa de diversidade e preceitos éticos, diz editor da Marco Zero

O jornalismo e o jornalista precisam buscar inspiração na comunicação popular e priorizar a produção de conteúdos diversos – notadamente os invisibilizados –, em vez de focar apenas em formatos. Longe de pretender ter uma saída pronta para a “crise do jornalismo”, o jornalista Laércio Portela, editor da Marco Zero Conteúdo, instigou os presentes à Conferência de Abertura do 38º Congresso Nacional dos Jornalistas a reverem suas concepções e certezas sobre a atuação profissional. O evento, reunindo cerca de 200 participantes, aconteceu na noite de 22 de agosto, no histórico Teatro São José, em Fortaleza-CE.

“Talvez esteja na hora de começar a buscar inspiração fora do Jornalismo. Porque se é verdade que a gente está vivendo um mundo de autoritarismo, de violações de direitos humanos, com a política institucional tomada pelos conservadores e pela agenda da bancada BBB (boi-bala-Bíblia), existe um mundo em ebulição nas periferias das grandes capitais e das médias cidades brasileiras. Gente que está produzindo conteúdo de comunicação às vezes mais diverso e mais rico do que o que a gente faz”, afirmou Portela.

Outros locais

Para o jornalista pernambucano – que passou nove anos em redação tradicional, dez em assessoria de imprensa e há quatro anos vive a experiência de atuar em um coletivo de mídia independente –, existem outras formas de fazer jornalismo, não apenas em redações tradicionais de empresas hegemônicas. “É preciso que a gente não olhe as redações de jornalismo como os únicos locais de produção jornalística. Certamente, ali é onde menos se faz jornalismo”, sentenciou. Citou o exemplo da Cooperativa de Jornalistas e Gráficos de Alagoas (Jorgraf) como possibilidade de organização da categoria.

“Existem outras formas de fazer jornalismo. A gente passa muito tempo pensando nos problemas dos patrões, sem pensar nas soluções para os jornalistas”, comentou sobre a chamada crise do “modelo de negócios” das empresas que baseiam sua receita financeira em publicidade. Propondo uma subversão dos critérios de “noticiabilidade”, sobretudo no tocante a fontes oficiais e coberturas tradicionais, Portela destacou que a Marco Zero Conteúdo vai “aos lugares onde não tem jornalista porque lá também tem notícia”.

A partir da experiência de mapeamento da comunicação popular nas periferias de Recife, feita pela Marco Zero Conteúdo, Portela destacou que, “nas periferias, gente que não é jornalista está produzindo comunicação de resistência”, com iniciativas como rádios comunitárias, grafite, hip hop, slam. “Muitas mulheres, jovens negras, à frente desses coletivos, estão produzindo comunicação: fanzine internet, Facebook. São essas pessoas que estão contando as histórias da violação da polícia em suas comunidades. E elas estão contando essa história porque nós não estamos lá. A gente não ouve a vítima. A gente vai lá e ouve o delegado”, comentou.

Autocensura

Laércio Portela criticou a superficialidade das cobertura e a preocupação exclusiva com formato. “O modelo como a gente faz o jornalismo, às vezes muito mais preocupado com a forma do que com o conteúdo, e ferindo de morte muitos dos preceitos éticos e cotidianos do jornalismo – que é a diversidade de fontes, a apuração cuidadosa – tudo isso, a gente foi relegando e constituiu um ambiente, em parte, pronto para as fake news. A gente ajudou a construir a ambiência para a proliferação das fake news”.

Problemas como a autocensura, a falta de censo crítico dos profissionais e de diversidade nas redações também foram apontados pelo editor da Marco Zero como entraves ao desenvolvimento do jornalismo democrático e à reafirmação do papel dos jornalistas. “Ninguém nunca me disse: ‘Laércio, não publica isso’, mas a gente tem instalado nas redações um processo sensacional de autocensura. Porque a gente está pensando na carreira”, apontou.

Para além dos debates técnicos e instrumentais, Laércio Portela reforçou a necessidade da discussão política para disputar as novas gerações de jornalistas. “Um congresso como esse precisa discutir para além do instrumental (que é importante, e que venha o instrumental para melhorar a nossa vida). A gente precisa construir pontes com a comunicação democrática e de resistência, que não é de jornalismo formal, pontes dos sindicatos com esse novo jornalismo”. Sobre tantos desafios, o jornalista disse esperar “ter bulido um pouco com as concepções” dos presentes.

Confira o vídeo da Conferência de Abertura do 38º Congresso Nacional dos Jornalistas:

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/videos/496439364508473/

(Publicado pelo Sindjorce. Redação: Samira de Castro, foto: David Leitão Aguiar.)

 

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