Manchetômetro confirma opção do JORNAL Estado de Minas por Aécio Neves

Pesquisa divulgada pelo site Manchetômetro, relativa à eleição presidencial de 2014, revelou elementos importantes sobre o modo como o jornal Estado de Minas trabalhou a informação para direcionar a produção de sentido por parte dos leitores e privilegiar um candidato em detrimento de outros. Para a análise, foram consideradas as chamadas de capa das edições diárias durante o período de julho a outubro de 2014, considerando-se menções positivas, neutras e negativas aos principais candidatos que disputavam a presidência da República: Aécio Neves, Dilma Rousseff, Eduardo Campos e Marina Silva.

Além de pontuar quantitativamente as menções a cada candidato, a análise buscou também, a partir da observação de diversos elementos linguísticos, mostrar como o discurso midiático pode construir a notícia de acordo com um propósito de intencionalidade. Assim, os modos de abordar um determinado fato, ao trazê-lo ao conhecimento do público, omitem certos aspectos que podem ser relevantes para a compreensão dos leitores/ espectadores/ouvintes e tornam opacos outros elementos, contribuindo para distorções e/ou construções equivocadas que geram determinados sentidos.

Na análise que efetuamos das chamadas nesse período, avaliamos que a capa do jornal deveria ser considerada como um todo, não apenas observando-se as menções aos candidatos ou as chamadas isoladamente. Tal procedimento se deve ao fato de que a capa forma um conjunto que é muito bem trabalhado e estruturado para conduzir certo padrão de leitura, e, se privilegiássemos somente chamadas principais isoladamente, correríamos o risco de desconsiderar aspectos relevantes.

A observação das capas durante esses quatro meses revelou que, em 118 edições, o jornal referiu-se 101 vezes a Aécio Neves nas chamadas de capa, sendo 78 menções positivas, uma negativa e 29 menções neutras. Com relação a Dilma Rousseff, foram feitas 80 menções, sendo 33 negativas, 11 positivas e 36 neutras; para Marina Silva, houve 47 referências, sendo 5 positivas, 16 negativas e 26 neutras.

Neste artigo, apresentamos para os leitores alguns aspectos que recortamos da análise. Para informações mais detalhadas, o levantamento completo está na página do Estado de Minas no Manchetômetro, disponível em: www.manchetometro.com.br 

Fonte: www.manchetometro.com.br/analises/estado-de-minas

1O jornal manteve uma tendência mais personalista, focada na figura dos candidatos, com poucas menções a partidos, fazendo isso somente quando havia escândalos que reportavam ao PT.

2 Nas manchetes, as escolhas linguísticas – termos, expressões e verbos utilizados para cada um – reforçam conceitos para o leitor: assertividade (Aécio Neves), incapacidade, fragilidade (Dilma Rousseff) e indecisão (Marina Silva).

3 Em relação à capa como um todo, podemos observar, por exemplo, que há sempre menção a algum assunto negativo de economia, em chamadas sempre próximas da chamada para as eleições. Não há menção a qualquer fator positivo. Não há também referência a nenhuma ação positiva do governo federal. Um exemplo que pode ilustrar essa estratégia é quando, no segundo turno, Dilma volta a ultrapassar Aécio e mantém tendência de subida. Nesse momento, o jornal começa a explorar temas que mostram “descaso” do governo federal com Minas Gerais (como é o caso da “agonia” do Rio São Francisco, cujo projeto, segundo o veículo, perdeu recursos do governo federal).

4Outra “tendência” no trabalho com a informação foi ignorar, sistematicamente, o fato de que Marina Silva teve uma subida vertiginosa e ultrapassou Aécio Neves, momento em que o cenário mostrava uma firme possibilidade de haver um segundo turno Dilma x Marina. Não há nenhuma menção a esse fato nas chamadas de capa das edições do Estado de Minas no período. Na capa do dia 4/9, por exemplo, o grande destaque (chamada de quase página inteira) é a escolha do nome do novo bebê macaco que nasceu no zoológico de BH. Neste mesmo dia, o Instituto Datafolha divulga pesquisa que mostra Marina Silva 20 pontos à frente de Aécio Neves e empatada tecnicamente com Dilma Rousseff. Tal fato não é mencionado pelo jornal nessa edição nem nas seguintes. A chamada para as eleições aparece sem destaque no canto superior direito da capa: “Nova bateria de ataques a Marina”. A chamada mostra que a candidata Marina Silva recebe críticas dos dois candidatos, e há destaque para a fala de Aécio Neves.

5Estratégia também recorrente foi o uso de abordagem muito negativa da economia. Quando a manchete era sobre economia, a forma de interpelar o leitor buscava sempre ressaltar um tom apelativo, bombástico, pejorativo, com uso de fontes em tamanho bem exagerado (em relação a outras manchetes) nas chamadas/títulos que enunciam/anunciam o “caos” e problemas “graves”. Quase não é utilizada a figura do sujeito enunciador no título, como outros veículos utilizam, mas a forma impessoal prevalece. Não há ninguém – economista, governo, institutos – que afirma que a economia está estagnada. Isso é dado como fato pela manchete, e nem necessita de fonte qualificada para corroborar o que se anuncia. Está dado simplesmente pelo jornal, então, é “real”.

O trabalho do manchetômetro

O Manchetômetro tem por objetivo servir como ferramenta para o aprimoramento da cidadania. Nas sociedades complexas dos dias de hoje, dependemos imensamente das informações que nos chegam por meio da mídia. Em suma, sem mídia não há como exercermos nossos direitos de cidadania de forma esclarecida. Infelizmente, a produção de conteúdo noticioso, a despeito do crescimento vertiginoso da internet, está ainda na mão de grandes empresas que tradicionalmente oligopolizam o setor em nosso país, desde o tempo da Ditadura Militar. Pior ainda, quase todas foram simpáticas àquele regime de exceção e, depois de restaurada a democracia, passaram a mostrar um consistente viés antipolítico, pró-mercado, antipopular e antiesquerda.

Nossa mídia falha no teste democrático do pluralismo. Cada meio não tem pluralidade interna, ou seja, não reflete os vários pontos de vista da sociedade sobre os temas, nem há no país uma pluralidade de meios que faça isso. Qualquer pessoa com algum bom senso e algum olho clínico, quando exposta ao noticiário de nossos jornalões ou dos programas jornalísticos da TV, é capaz de notar o extremo viés da cobertura. O cidadão comum encara esse viés dia após dia, mas não tem ideia de sua intensidade e de como ele é dispensado contra alvos aqui e ali. O Manchetômetro veio sanar essa lacuna. Agora podemos ver claramente, nas páginas do site, as proporções de notícias positivas, negativas e neutras que os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e Estado de Minas dedicam aos principais políticos e partidos do Brasil. A mesma análise é também feita para o Jornal Nacional, o programa jornalístico mais popular da TV.

O Manchetômetro começou analisando a cobertura da eleição presidencial de 2014, mas logo foram incorporados ao site análises das eleições de 2010 e de 1998. Os dados da eleição presidencial de 1998 são de particular interesse, pois nela o presidente concorria à reeleição, como agora em 2014. Só que naquela época era o PSDB na situação, e agora é o PT. Ao compararmos 1998 e 2014, como feito nas páginas do Manchetômetro, podemos constatar se a grande mídia tem um viés contra qualquer um que está no governo ou somente contra o Partido dos Trabalhadores.

Leave a Reply

Your email address will not be published.