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29/6/2010|Artigo
 
  Sobre Fredy Mendes
 
Edmilson Guimarães

Não mais de uma vez transgredi regras e quebrei barreiras para poder vivenciar coisas e circunstâncias que seriam incompreensíveis ao cidadão comum, pelo simples fato de tentar passar para a sociedade exatamente as experiências e sensações a que ela não tem acesso. Eu poderia estar preso porque nestes mais de 20 anos de exercício pleno da profissão já tive de conviver quase que intimamente com marginais e traficantes ou marcar programas com adolescentes que se prostituíam às margens de uma BR para desnudar uma realidade muitas vezes ignorada por uma grande maioria hipócrita. Nem por isso deixei de repugnar bandidos e pedófilos. Quem elogia ou até admira o resultado de uma boa reportagem investigativa nem faz idéia a que se sujeita um bom repórter antes de alcançar seu objetivo de retratar a realidade nua e crua. Um processo longo, ás vezes doloroso, e muitas vezes infrutífero.

Conheço Fredy Mendes, talvez não o suficiente para dizer que intimamente, mas com certeza o suficiente para dizer que se trata de um grande repórter. Não tenho a pretensão, neste artigo, de sair em sua defesa, justamente no momento em que o criador de manchetes se torna alvo da liberdade de expressão que ele mesmo tanto defende. Poderia parecer algo pessoal, ou uma atitude corporativista, mas não é! Sou movido pela simples sensação de que, em vários momentos de minha carreira, eu poderia estar na mesma situação, independente de ser culpado ou inocente.

Peço apenas que, antes de julgar, ou pré-julgar, cada um dos Pilatos de plantão tenha pelo menos a consciência do que se passa na alma de um jornalista por vocação. Não há, definitivamente, como passar a um leitor ou telespectador atento, de forma verdadeira e sincera, aquilo que não se vivencia. É claro que não quero dizer com isso que não se pode descrever com fidelidade um estupro sem antes cometê-lo. Mas com certeza isso se torna impossível sem que antes desnudemos a alma do estuprador e do estuprado. E é esta a magia que nos é tirada a cada dia pela frieza das agências de notícias ou pela simples reprodução dos boletins de ocorrência que saciam os acomodados.

Jornalistas de verdade perderam espaço para apresentadores canastrões que se disfarçam de mendigos para mostrar uma “realidade” produzida por grandes emissoras de tv, ou modelos peitudas que simulam programas em esquinas cenográficas e alavancam o Ibope. Atores são contratados para dar entrevista encapuzados, enquanto nós, pobres jornalistas, sem dinheiro nem intenção de pagar cachê, nos expomos buscando a verdade usando nossos próprios carros, nossos telefones pessoais, ou o computador de casa.

Volto a insistir que não pretendo aqui antecipar veredicto sobre as acusações imputadas ao meu colega Fredy Mendes, até porque escrevo antes de ter qualquer acesso ás investigações. Mas aproveito o momento e a repercussão do caso para fazer uma confissão: Em mais de 20 anos de profissão, com passagens por jornais como Estado de Minas, Hoje em Dia e Folha de São Paulo, e emissoras de TV como SBT, Bandeirantes e Globo, durante essa longa carreira de repórter da qual me orgulho, em vários momentos poderia ter sido “flagrado” como pedófilo, traficante, contrabandista ou estelionatário, só pra citar alguns exemplos. Que Deus me perdoe pela profissão que escolhi!


*Jornalista e réu confesso. É de Montes Claros, já tendo representado o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais na gestão de Aloísio Lopes




O jornalista Fredy Mendes foi preso em Montes Claros, em 25 de junho. Leia aqui