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9/3/2010|Literatura
 
  Jornalista Ramiro Batista lança romance que mistura ficção e realidade
 
A fotografa de um grande jornal paulista desaparece em meio ao comício das Diretas, no Rio de Janeiro, em circunstâncias que lembram o passado de atentados, torturas e perseguições da ditadura, com um dossiê que antecipa as manobras da tumultuada sucessão presidencial em que governo e oposição jogam todas as suas cartas. Junto a um veterano desbocado e a um velho escritor de obituários, um jovem repórter em início de carreira mergulha num teia de conspiração, corrupção e contraespionagem que vai desandar no furo de sua vida: o futuro presidente da República, que enfrentou boicotes, traições, chantagens e ameaças de golpe para se viabilizar como candidato de pacificação e conduzir o pais à democracia, tem uma doença grave, pode não tomar posse e colocar em risco a transição pacientemente construída. O repórter apura que ele esconde a doença, descobre as articulações secretas para escondê-la e, numa corrida contra o tempo, vai tentar publicar a manchete que – em meio a um clima catatônico de medo e desejo de mudança – não interessa a ninguém.

Com essa trama, o jornalista e escritor Ramiro Batista desenvolve em O dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder (Editora Batel, 512 páginas) um suspense de rara eficiência para contar um dos momentos mais traumáticos da história recente do país e uma fábula moral sobre as dores do crescimento em meio às intrigas dos bastidores de um grande jornal num pais às portas de uma convulsão.

O lançamento nacional será em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, no próximo 10 de março, 25 anos depois da posse fracassada que terminou em morte após sete intervenções cirúrgicas e arrastou multidões nunca vistas em grandes cortejos. Simultaneamente, entra no ar o site www.odossierubicao.com.br, com maior detalhamento dos fatos históricos e do pano de fundo político e cultural da época.
O livro procura desvendar a personalidade intrigante do personagem que conduziu o processo de transferência do poder dos militares para os civis após 20 anos de ditadura e que, também em março, faria 100 anos, paralelamente à do jovem repórter cheio de vontade de mudar o mundo que chega à Redação de um grande jornal paulista conflagrada entre jovens e velhos, em transição da boemia literária para as urgências da produção industrial da notícia. O país também transita da ditadura militar para um governo civil, da escuridão dos porões para a claridade das ruas mobilizadas em torno de um grande movimento por eleições diretas para presidente, da polarização política para a diversidade de ideias.
O autor mistura de forma inusitada a história real – da frustração com a campanha das Diretas até a posse malograda do presidente eleito por via indireta – com uma sucessão de desencontros, envolvendo triângulos amorosos, sexo, traição, drogas, sonhos, frustrações e, sobretudo, muito mistério. Realidade e ficção se cruzam com rara habilidade para acompanhar as artimanhas do candidato a presidente em meio às maquinações do processo sucessório e, ao mesmo tempo, o aprendizado sentimental do jovem assustado com as tramas do poder que acreditava existir apenas longe da Redação.
Tudo emoldurado por um painel em pílulas do ocorria no mundo, quando o governo belicista de Ronald Reagan planejava invadir a Nicarágua, o cardeal Joseph Ratzinger enfrentava os padres da Teologia da Libertação, uma doença tida apenas como um ‘mal gay’ começava a dar seus primeiros sinais e o país discutia a reserva de mercado na informática, os livros de dieta, a literatura feminina, o teatro besteirol, as danceterias, as rádios FM e as bandas de rock nacionais.
Rubicão remete ao rio de Roma, que César atravessava ou morria, extraído de uma frase de Tancredo: “Ninguém tira os sapatos antes de chegar ao rio, mas ninguém vai ao Rubicão só para pescar”. Referência ao estilo cuidadoso do mineiro que se deslocava com excessivo cuidado até a sua hora para não melindrar militares e adversários num momento crucial de transição, a expressão é tomada aqui como alavanca para discussão sobre ética, os limites dos homens e dos mitos. Mas também como rito de passagem dos personagens reais ou fictícios. Como o candidato e o país que precisam chegar inteiros à outra margem, o jovem repórter também está diante do seu rubicão e aprenderá que não deve pagar qualquer preço para atravessá-lo.