O carnaval do povo está renascendo

Estamos assistindo, até mesmo com certa surpresa, um ressurgimento do carnaval, do verdadeiro carnaval, o das pessoas nas ruas, se divertindo, repetindo, no século 21, o espírito e as razões que fizeram nascer, na antiguidade, esta festa popular.

Até mesmo a Igreja, quando resolveu “sacralizar” as comemorações das bacanálias e saturnálias greco-romanas, não acabou com o sentido alegre das festas, só alertando que elas eram uma “despedida da carne”, significado semântico do “carnem levare”, origem do termo “carnaval”.

A festa deveria ser o momento de um extravasamento ao qual se seguiriam a quarta- feira de cinzas – com a tétrica frase latina: “memento, homo, quia pulvis estis et in pulverem reverteris”- e a quaresma, com seus quarentas dias de jejum, abstinência e preparação para o grande momento da Páscoa.

Ao longo dos tempos, o carnaval teve posturas diferentes, conforme a cultura de cada região. No Brasil, por exemplo, ele foi o entrudo, em que a alegria vinha recheada de elementos nem sempre considerados adequados. Pouco a pouco, porém, ele foi abrindo espaços para o carnaval como nós o conhecemos. Isto aconteceu a partir do final do século 19. Os ranchos e blocos foram entrando no lugar dos bandos do entrudo.

O nascimento das músicas carnavalescas – a partir do “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, em 1896, o surgimento do disco, em 1902, e do rádio, em 1922, ajudaram a incrementar a festa e a criação da primeira escola de samba – a Deixa Falar, em 1928 – trouxe novos ingredientes que a tornaram a mais importante manifestação popular brasileiro.

As marchinhas, sambas e outros ritmos, a participação comunitária, as fantasias e temas dos grupos serviram ainda para um aspecto mais importante do carnaval: a oportunidade da manifestação do pensamento popular.

O carnaval assumiu, assim, um caráter de tribuna popular e não foi mera coincidência que, após o Golpe Militar, de 1964, se estabelecesse sobre essas manifestações um severo esquema de censuras e proibições.

Simultaneamente, nessa mesma época, se iniciou um processo de valorização do espetáculo de desfiles em vez de o povo na rua. Sem dúvida alguma, os desfiles de escolas, notadamente do Rio de Janeiro, se tornaram o maior espetáculo da terra, visto ao vivo por milhares de pessoas e, via TV, por bilhões de espectadores.

Os resultados, entretanto, nós os vivemos nos últimos anos. Os blocos acabando, a música carnavalesca desaparecendo, substituída por efêmeros sambas-enredos, e as festas regionais sendo trocadas, criminosamente, pelo carnaval via TV ou por  formatos que são importantes numa região mas que fogem ao padrão de outros locais. Parece, entretanto, que está havendo, nos últimos tempos, uma tentativa de retorno aos formatos tradicionais. No Rio de Janeiro, por exemplo, milhões de pessoas já dançam nas ruas. Em São Paulo, um concurso de sambas e marchinhas volta a movimentar artistas e compositores. Em Belo Horizonte, a Seresta de Carnaval leva milhares de pessoas a Santa Tereza e os blocos atraem milhares de pessoas à Praça da Liberdade, inclusive, causando danos ao patrimônio.

Não é só uma primavera árabe que está levando o povo às praças. A alegria também. E é neste momento que cabe aos meios de comunicação e jornalistas um importante papel.

Em várias cidades mineiras, incluindo Belo Horizonte, autoridades estão agindo no sentido de proibir em vez de buscar alternativas para, mesmo defendendo o patrimônio, abrir espaços à libertação da alegria popular. Em todo o mundo, isso acontece. Por que não em Minas? Por que não em Belo Horizonte? Algumas respostas, todos conhecemos; Não temos um local para eventos de massa na cidade. Não temos regras que, em primeiro lugar, permitam ouvir a voz do povo e, em segundo lugar, a dos prédios.


É hora de perguntar, por exemplo, como um Centro Cultural, como o da Praça da Liberdade, vai se concretizar, sem manifestações populares, inclusive o carnaval que, sinal, no início de Belo Horizonte, ali tinha o seu epicentro, inclusive, com a presença do governador do Estado.


O carnaval popular está renascendo. Ele não deve ser morto novamente e à comunicação cabe importante papel de ajudá-lo a ser o que o originou em essência: a alegria do povo na rua.

Autor: 
Carlos Felipe de Melo
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