De Frente para o Poeta

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Márcio Metzker

Minha avó paterna, Maria da Conceição Drumond, era neta do Barão Drummond, rico fazendeiro de Itabira e avô do Carlos Drummond de Andrade. Só quando o barão sentiu a morte chegando resolveu reconhecer os filhos bastardos, mas mandou colocar o Drummond com um “m” só, para diferenciar dos legítimos. Vovó era, portanto, prima do Carlos, e casou-se com meu avô José Thiago da Silva, que na adolescência tinha sido colega do futuro grande poeta no Colégio Arnaldo de Belo Horizonte.

Meu pai me deu um dia um precioso papel: era um cartão de Natal manuscrito pelo Carlos para o meu avô, ambos meninos. Assinava Carlito. Levei esse cartão num encontro com o Carlos no Rio, em 1985. Carlão Barroso e eu tínhamos sido mandados pelo Guy de Almeida para um curso de uma semana na TV Educativa com jornalistas do Brasil inteiro, porque estava engajados no projeto da TV Minas, iniciativa do Zé Aparecido. Durante um papo na Redação, surgiu um assunto literário e eu sugeri que entrevistássemos o Drummond. Os cariocas me olharam e zombaram: “Mineiro, Carlos Drummond não dá entrevista”.

Aí eu pedi para fazer uma tentativa. Me deram o telefone e eu liguei, achando que seria atendido por uma secretária, e que depois passaria pelo crivo da Maria Julieta. Mas ele atendeu pessoalmente, com sua voz já enfraquecida, e disse que aceitava falar comigo às 17 horas e, dependendo do assunto, gravaria entrevista. Me passou o endereço em Botafogo, mas pediu que não levasse a equipe lá naquele momento. Quando desliguei, todos estavam me olhando boquiabertos. Eu disse que tinha meus truques e sabia fazer o sotaque itabirano.

Contei a história pro Carlão e ele pediu para me acompanhar, todo assanhado pela perspectiva de pedir ao poeta um prefácio para seu livro de poemas. Mas depois do almoço me ligou a Maria Julieta para dizer que o pai tinha esquecido de um compromisso na livraria José Olympio, uma homenagem ao Pedro Nava recentemente suicidado, e que Drummond falaria comigo lá.

Lá fomos nós, caipiras mineiros, para a famosa livraria, e a equipe da Educativa ficou de butuca, filmando de fora, porque estava lotado: Fernando Sabino, Oto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos, Antônio Callado, todo mundo das letras lá dando sopa. Falei com alguns deles, mas a conversa com Drummond foi decepcionante. Aquela vozinha fraca ficava inaudível no barulhão. Só pude reparar que Drummond tinha olhos azuis, como minha avó. Mostrei-lhe o cartão de Natal, ele ficou alisando, mostrou para Maria Julieta e me perguntou se podia ficar com ele. Eu neguei, dizendo que era a única relíquia literária da família. Não houve entrevista, e o Carlão nem teve oportunidade de dar sua cantada. Drummond estava muito fraco, e morreu menos de um ano depois.

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