Agenda de Memórias, por Hélia Ventura

Todos os jornalistas que viveram a época pré-internet tinham uma agenda de papel. Aprendi a importância deste recurso logo nos primeiros dias de repórter como estagiária do jornal Estado de Minas.

Logicamente que nessa época ainda não tinha a minha, por isso recorria com frequência à agenda dos colegas. Um dia, precisei do número de telefone de uma fonte para apurar uma matéria e a única pessoa que tinha este número era o editor de política, Roberto Elísio.

Muito gentil e solícito, como sempre, mesmo comigo, uma estagiária, me atendeu com boa vontade. E aí ocorreu um fato engraçado. Esperava que ele recorresse ao famoso caderninho, geralmente bem surrado, e eis que ele se levanta e se vira para a parede que ficava atrás de sua mesa, coloca os óculos e começa a percorrer com os dedos e o olhar atento aquele pedaço de parede.

Só então percebi que a parede era toda rabiscada com nomes e números de telefones. Esta era a agenda do editor de política do grande jornal dos mineiros. O não menos grande Roberto Elísio, o todo poderoso jornalista de Santa Luzia, com quem tive os primeiros contatos de uma longa convivência na redação da Rua Goiás, em Belo Horizonte.

E por que essas lembranças tão distantes no tempo me ocorrem agora? Simples. Na pasmaceira dos dias de prisão domiciliar, arrumar livros na estante e gavetas de um modo geral costuma nos pegar. Não gosto dessas tarefas.

Mas hoje tive o ímpeto de dar uma organizada em alguns papéis que se acomodavam em bagunça descontrolada na gaveta de meu criado. No meio da desordem, lá estava uma agendinha de capa preta que me acompanhou por anos a fio. Grande companheira. Eu a levava por toda parte.

Não saía sem ela (vai que de uma hora pra outra precisaria me recorrer a ela). Com uma pontinha de saudade, não nego, decidi dar uma folheada. Em uma das páginas, o que encontro? Vários telefones de Delfim Neto, o ex tanta coisa, inclusive poderoso ministro da Fazenda de um dos presidentes da ditadura, acho que do Geisel. Ou seria do Médici? (vou conferir), cuja principal tarefa era controlar com mão de ferro os índices de inflação no início da década de 1970.

Alguém pode achar estranho. Mas, muitos anos depois de ser ministro, Delfim Neto passou a ser meu interlocutor frequente. Isto acontecia porque ele mantinha uma coluna numa página que eu editava no Diário da Tarde.

Não raro, ligava pra ele porque precisava ajustar seu texto ao espaço disponível na página. Justiça seja feita: nunca me criou problemas nessas horas. Geralmente deixava que eu suprimisse os caracteres excedentes sem questionar. Nessa época, a ditadura que eu enfrentava no jornal era um projeto gráfico que estabelecia o tamanho, e não o conteúdo, do que podia ser publicado.

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2 comentários

  1. Elizabeth Maria Fleury Teixeira

    Precisa ter continuação. Boas memórias.
    Um beijo da Beth Fleury

  2. Marcia+Duarte+Lage

    Cara Hélia, compartilhamos a ditadura da reforma gráfica. Millor Fernandes dizia que quando um jornal queria parecer moderno, punha ou tirava fios nas matérias. Conteúdo que era bom, necas. O mercado ditava.
    Sobre a agenda, tenho saudade dos tempos em que guardava na memória os números da Prefeitura, das Secretarias, das repartições públicas às quais sempre recorríamos. E dos Sindicatos. Agora, com a substituição da memória pelo celulares, e com os compridos números desses, não há cérebro que recorde números de telefone. Pelo sim, pelo não, mantenho comigo agendas de papel. Vai que…..

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