A tragédia da Gameleira, por Ivan Drummond

São muitas as cenas e acontecimentos da minha infância que ficaram marcadas na minha memória. Um desses acontecimentos, trágico, completou 50 anos em 4 de fevereiro: “a tragédia da Gameleira”. Foi quando o pavilhão, que seria o maior da América Latina e transformaria Belo Horizonte, que deixaria de ser apenas mais uma capital brasileira, para ser sede de grandes eventos. Mas este desmoronou, matou 65 operários. Tantos outros ficaram mutilados. E o Estado, que deveria ter assumido a responsabilidade, nunca o fez.

26-3713. Este era o número do telefone da minha casa. Ele tocou ainda de madrugada. Era da TV Itacolomi, da qual ele era repórter, o único, na época. A Rural, o carro de reportagem da época, iria passar lá em casa, para apanhá-lo. Lembro dele desligar o telefone e gritar. “Neusa (minha mãe), prepara o café que tenho de sair correndo. Aconteceu uma tragédia, lá na Gameleira, um desabamento. Tem muitos mortos.”

Era o começou de um sofrimento que afetava toda a cidade. Não havia outro assunto. Naquele dia, minha mãe não foi trabalhar. E me disse que teria uma tarefa pra mim. No meio da manhã, ela me chamou e disse que teria de levar marmita para meu pai e para o cinegrafista, Gecydo Freire.

Desde pequeno, uma preocupação dos meus pais foi me mostrar a cidade e todos os seus caminhos. Pois ela me disse que teria de pegar o ônibus, ir para o Centro e depois tomar o Gameleira e que lá, veria onde tinha sido a tragédia, me contou o que tinha acontecido e que meu pai estaria esperando. Tinha de entregar a marmita pra eles e voltar.

Eu tinha apenas 11 anos, prestes a fazer 12. Peguei o ônibus São Lucas, linha 54. Era colorido, de verde escuro e verde claro. Fui até o ponto final no Centro, atrás do parque Municipal. Carregando as marmitas numa sacola, onde havia também dois garfos, sapi do ônibus e rumei para a Praça 7. O ônibus da Gameleira passava por ali, em frente ao prédio do Banco Mineiro da Produção. Sabia disso, conhecia bem, porque minha mãe trabalhava naquele prédio, que era sede do Tribunal de Contas do Estado. Nos tempos do grupo, no Afonso Pena, na Avenida João Pinheiro, tinha de sair da aula e ir pra lá, encontrá-la, para voltar pra casa.

Parei no ponto e fiquei esperando. Demorou, como demorou. E de casa, no São Lucas, até a Gameleira, uma hora e meia. Cheguei, desci e comecei a gritar o nome do meu pai. Daí a pouco ele apareceu. Entreguei as marmitas, e como sempre saí atrás dele. Ele me levava, sempre que dava, para trabalhar com ele, para fazer o que era chamado de ronda, para coletar as notícias, primeiro da manhã, e depois da tarde, para os Jornais da Itacolomi, Factorma, na Hora do Almoço, e Bancominas, à noite.

Lá vi um amontoado de pedras, que depois fiquei sabendo que era concreto. Não haviam tijolos. Tratores escavadeiras, caminhões. Ele me barrou e disse que tinha de voltar pra casa, pois o que estava acontecendo lá dentro era muito triste de se ver. Obedeci, Mais uma hora e meia de ônibus. No dia seguinte, retorno, com a mesma função e no outro dia também.

Equipe de externas

Para a cobertura, além da equipe de reportagem, foi montado, acho que pea primeira vez na história da TV mineira, uma cobertura de vulto, com uma equipe permanente no local.

O caminhão de externas da TV Itacolomi, que parecia com o Brucutu do Exército, só que muito mais simpático, pois tinha o indiozinho desenhado e os dizeres “TV ITACOLOMI” estampados na carroceria, estava lá.

Fazer transmissões ao vivo, naquela época, era muito difícil, pois dependia, às vezes, de colocar antenas no meio do caminho, para captar e emitir o sinal, até chegar à TV e sua torre. Aproveitou-se a experiência com o futebol, que era a única transmissão ao vivo, que se fazia, assim mesmo, às vezes.

Para lá, foi o locutor e apresentador, que algum tempo depois se tornaria o editor dos jornais da televisão, Sérgio Prates. Ele conta que na época, não havia planejamento para as coberturas, e que recebia uma ordem, você entrar no ar daqui a 15 minutos e vai falar por cinco minutos. Outras vezes, a transmissão era de 15 minutos.

Na época, o repórter, no caso do meu pai, anotava o que acontecia, fazia entrevistas, enquanto o cinegrafista fazia as imagens. Depois, tinham de ir para a sede da TV, no Edifício Acaiaca, e lá, redigia, em máquina de escrever. Na apresentação do jornal, o locutor, nesse caso Jaime Gomide, lia o que ele tinha escrito, enquanto as imagens eram mostradas.

E o Sérgio Prates lembra do sofrimento que era, pois passava fome. “A gente tinha leite para beber e pão, seco, sem manteiga, para comer. Era só. Não havia bares ou restaurantes na região. Você levava comida para seu pai e o Gecydo. Eles tinha de fazer a cobertura do incidente, iam lá duas a três vezes por dia, mas tinham, também, de fazer outras coberturas, como casos de polícia e os clubes de futebol, além de política, que eram os carros chefes dos nossos jornais.”

Assim como Sérgio Prates, eu também não me esqueço do que aconteceu. Só existia esse assunto na cidade. Lembro que quando voltava para casa, os amigos, companheiro de pelada na rua, estavam me esperando, para saber notícias. Eles sabiam que eu estava indo lá levar a comida. Eu era o repórter exclusivo da turma, com apenas 12 anos.{

[12/2/2021]

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3 comentários

  1. A TV Itacolomi foi essencial para a marca da ética e profissionalismo do jornalismo mineiro . Daqui do meu sofá amarelo ainda vejo passar algumas rurais. Felizmente a rural aqui sendo utilizada para os afazeres no campo . Vida que segue ….

  2. Que maravilha de relato, Ivan! Agradeço pela iniciativa do “Pra não dizer que não falei”. A seção é um grande Kaol para gente que pesquisa o jornalismo mineiro e tenta, sempre que possível, seguir a competente “escola mineira de jornalismo”. Muito obrigado.

  3. Que história, Ivan! Tragédia enorme e coragem maior ainda de um menino de 12 anos. A gameleira era longe…. E a área, iinterditada. Os operários tinham acabado de almoçar e estavam cochilando embaixo da enorm laje de concreto. Estávamos em plena ditadura Militar e o governador era o Rodon Pacheco.Prefeito, Israel Pinheiro, ambos nomeados. Tiraram os apoios antecipadamente para a inauguração. Pelo menos, é o que me lemvro da época. Os que puderam ser retirados, tiveram pernas e braços amputados no local. Não era mesmo cenário fácil de adultos ver. Muito menos, uma criança.
    Orgulho danado de você e do seu pai, que descreveu tudo sem medo de dizer o que viu e apurou.

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