Rejeição em extraditar Assange é ‘vitória parcial’, afirma presidenta da Fenaj

Por Thiago Minete Cardozo

Em entrevista à Sputnik Brasil, Maria José Braga, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), avalia que a decisão de não extraditar Julian Assange (foto) foi pautada na debilidade de saúde do australiano, e não na liberdade de imprensa.

Nesta segunda-feira (4/1), a juíza do Tribunal de LondresVanessa Baraitser negou a extradição do fundador do WikiLeaks aos Estados Unidos. Na decisão, Baraitser considerou as condições de saúde de Assange, que sofre de diversas doenças mentais.

Por conta desta consideração, Maria José Braga, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), avalia que pode ser precipitado afirmar que a decisão da juíza significa uma vitória da liberdade de imprensa.

“É uma vitória parcial. Claro que é uma vitória importante, porque preserva a vida do Julian Assange e reconhece que, nos Estados Unidos, ele [Assange] correria risco. Mas digo que é uma vitória parcial porque ela [a juíza] argumentou questões humanitárias, mas não tratou do mérito da questão, que é a liberdade de imprensa, ameaçada neste caso”, avalia Braga.

Ainda cabe recurso à decisão e é provável que os advogados do lado norte-americano ainda tentem reverter a situação para que Assange seja extraditado. Braga afirma que tanto a Fenaj quanto a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês) continuarão pressionando não só para que o recurso seja negado, mas também para que Assange seja libertado.

Marcelo Trasel, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), também se pronunciou sobre a decisão desta segunda-feira (4/1) no caso Assange.

“Esperamos que as apelações também sejam rejeitadas. O caso é crucial para o jornalismo, que precisa divulgar temas de interesse público mesmo que isso crie constrangimentos para governos”, disse Trasel, em publicação no saite da Abraji.

O caso WikiLeaks

Os Estados Unidos acusam Julian Assange por crimes de espionagem e conspiração. Ao lado de Chelsea Manning, em 2010, Assange publicou 251.287 documentos diplomáticos dos EUA, que revelaram informações como a morte de civis e jornalistas em Bagdá durante um ataque aéreo dos EUA, fichas de detentos da prisão de Guantánamo e dados sobre mais de 160 empresas de vigilância em massa.

Um dos eventos mais importantes do WikiLeaks foi o vazamento de documentos comprometedores para o Partido Democrata dos EUA na segunda metade de 2016, antes das eleições presidenciais no país norte-americano, que indicaram um favorecimento da candidata Hillary Clinton, em detrimento de Bernie Sanders, e que poderiam ter contribuído para sua derrota final contra Donald Trump.

Considerando a relevância das informações tornadas públicas pelo Wikileaks, Braga opina que, por mais importante que seja acompanhar o julgamento de Assange, não se pode esquecer também das informações que ele ajudou a revelar.

“Os EUA fazem uma propaganda recorrente de serem o país da liberdade, mas isso não é uma verdade, plenamente. No caso de Julian Assange, não se leva em conta a liberdade de imprensa e, principalmente, os atos do governo norte-americano e o cometimento de crimes pelos EUA, que precisam, sim, ser temas de debates internos nos EUA e precisam chamar a atenção da comunidade internacional”, afirma Braga.

Também nesta segunda-feira (4), o ex-agente da inteligência norte-americana Edward Snowden, que também é procurado pelos EUA, comemorou a recusa da extradição de Assange. Braga ressalta que Snowden e Assange estão envolvidos em “casos diferentes, com acusações diferentes e procedimentos diferentes” por parte da comunidade internacional – mas deseja que a liberdade jornalística seja lembrada também no caso do ex-agente da CIA.

“Espera que o caso Snowden seja visto do ponto de vista da liberdade de imprensa, e que os procedimentos sejam tomados a partir deste ponto de vista”, finaliza Braga.

 

(Publicado pelo Sputnik Brasil. Crédito  da foto: AFP 2020 / John Stillwel. )

 

[5/1/21]

 

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