A várzea é mais que futebol, por Pedro Artur

A várzea é mais que futebol: é lazer e deixa a garotada longe das drogas e do crime.

Houve um tempo em que Belo Horizonte era rodeado por campos de futebol. Só aqui, no Esplanada, tínhamos pelo menos uns cinco próximos uns dos outros. Isto nas décadas de 1960 e início da de 1970… Depois sumiram do mapa com a especulação imobiliária. Diziam que a várzea já não servia para ‘alimentar’ os times profissionais – Totonho, ex-Pompéia, talvez tenha sido um dos últimos dessa safra, jogou no Villa Nova, Atlético, Santos, Sport e Monterrey, no México.

Penso, porém, que esse nunca foi o objetivo principal da várzea, o de fornecer pé-de-obra para os grandes da Capital ou de outros estados. Se desse para unir o agradável , ótimo. Caso contrário, é vida que segue, como ensina o mestre Rogério Perez. Esses campos sempre tiveram um outro viés de cunho mais social.

Era nele que o garoto mais pobre podia brincar, era sua área de lazer. Queria ser Tostão, Dirceu Lopes, Dario, Pelé… Era apenas sonho, poucos levavam isso a ferro e fogo. Jogar aos sábados e domingos era uma festa. Você queria ganhar dos vizinhos, que eram seus rivais na bola e na paquera.

Além do lazer, a prática do esporte implicava (e implica até) hoje manter longe de qualquer outro vício mais perigoso, especialmente das drogas. Problema social e criminal que hoje interrompe vidas nas suas mais tenras idades, sobretudo das camadas mais pobres e vulneráveis da sociedade brasileira.

Futebol não é só para dar lucros aos clubes profissionais, mas tem um caráter nacional e popular que não se pode nem se deve arrancar dos corações. Essa história de se achar que o futebol é ópio do povo e de um ridículo atroz. E de uma burrice sem fim. Pode, sim, ajudar os jovens tomar outro rumo em suas vidas que não cair nas mãos das drogas e do tráfico.

Mas, não! As otoridades pensavam (e pensam) com seus botões, em sua maioria. Por isso, colocaram em prática a política de destruição desses campos. Aqui, em Beagá, é evidente e visível. Os campos sumiram de vez de nossos olhos. Para se ter uma ideia, no Esplanada e vizinhanças essa geografia fazia parte de nossas vidas, lá pelos idos de 1960, 1970… O campo do Independência era separado do Pompeia pelo Arrudas. O campo do Santos ficava mais em cima, o do Monte Azul depois da ponte da Abadia. E ainda tinha o do Palmeirinhas , onde hoje passa a Avenida dos Andradas.

O amigo Carlão (ex-zagueirão e hoje fundador e puxador de samba do Bloco Enche Meu Copo, que arrasta multidões nos dias de Carnaval na Praça Santa Rita) alertou-me recentemente que havia até pouco tempo atrás o campo do Pompéia (mudou para esse local com a perda do seu nas proximidades da Rua Cravinas) na divisa da Avenida dos Andradas com a Itaituba (antiga curva da Morte, hoje extensão via 710), mas que agora era puro mato. A PBH não poderia dar uma mão e fazer de novo lá um campo que seria útil ao time, à meninada da região, e à população em geral. O alcaide é do ramo, né.

 

[25/12/20]

 

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