SJPMG informa e lamenta o falecimento da jornalista Déa Januzzi

Por Ivan Drummond

O jornalismo mineiro está triste neste 4 de novembro. Morreu hoje aos 68 anos Déa Januzzi, uma das mais importantes jornalistas desse Estado, em todos os tempos. Ela estava internada há 10 dias no Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro. Foi para lá depois de sentir-se mal. Ficou todos esses dias no CTI.

O velório será nesta quinta-feira 5/11, de 15h às 17h30, no cemitério Parque Renascer, em Contagem, com as restrições impostas pela pandemia (limitado a dez pessoas ao mesmo tempo, medição de temperatura na entrada e uso de máscara), e o sepultamento em seguida.

Déa Lúcia Januzzi nasceu em Belo Horizonte em julho de 1952. Era filha de Amélia Lage Januzzi e Guaracy Januzzi, o Guará, um dos maiores jogadores da história do Atlético. Construiu sua carreira no jornal Estado de Minas, para onde entrou assim que se formou na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1974.

“Escrever foi a coisa mais revolucionária que fez na vida”, dizia. Essa era Déa, que trabalhou no Estado de Minas por 38 anos e meio, antes de se aposentar. E há pouco tempo, em maio de 2018, tornou-se colunista do portal do jornal. Também colaborou na revista Oscar e no blog 50 e mais. Era sindicalizada desde 1976.

Começou na profissão como revisora. O pai a levou ao jornal, assim que se formou. Ele era amigo de dona Ivone Borges Botelho, que era colunista. Ela encaminhou a Déa. Não tinha lugar na redação. Ela foi, então, para a revisão.

Mas, nesse início, começou a fazer matérias para a Ana Marina, no Caderno Feminino do EM. Aí, Cyro Siqueira, que era editor geral do EM, mandou ela subir para a redação, pois gostou de suas matérias.

Uma das primeiras matérias que Déa Januzzi escreveu debatia o aborto nas páginas do Estado de Minas, em 1974.

O curioso, é que quando chegou à redação, foi ser a segunda repórter mulher. Era ela e Cristina Bahia. As outras duas mulheres da redação eram Ana Marina, editora do Caderno Feminino, e Dona Oswaldina Nobre, que era a secretária de redação.

Participou de um dos primeiros movimentos feministas, quando Doca Street matou Ângela Diniz: “Quem ama não mata”.

Sempre impressionou pela sensibilidade de artista. E, talvez por esse motivo, foi logo adotada pelo jornalista e escritor Roberto Drummond (1933-2002), a quem esteve ligada por uma profunda amizade até a repentina morte dele.

A amizade começou quando ela fez a matéria sobre o aborto. Roberto gostou tanto da matéria, que a chamou e disse: “Você vai fazer muito melhor que isso”. Passou a discutir as pautas e matérias que a Déa propunha. Virou uma espécie de conselheiro. Os dois se tornaram superamigos.

Déa foi uma das jornalistas mais talentosas do país. Em 1999 ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série “Criança no lixo, nunca mais”, juntamente com Sandra Kiefer, Francis Rose e Evaldo Sérgio. Foi vencedora também do Prêmio Longevidade de Jornalismo Bradesco Seguros, mídia impressa, com a reportagem “Envelhecemos!”, publicada no jornal Estado de Minas de dia 30 de setembro de 2017.

Na reportagem, feita em parceria com a repórter Vanessa Jacinto, foi criado um cenário imaginário em 2050, ano em que haverá, segundo as estatísticas, maior número de idosos do que jovens. O texto, de grande sensibilidade, espalha-se pelas oito páginas do suplemento especial criado para comemorar o Dia Internacional do Idoso.

Na ocasião, ela disse: “Este prêmio é muito importante, pois tira os velhos da invisibilidade e ajuda a diminuir o preconceito, porque, como mostram as maravilhosas Bibi Ferreira, 91 anos, e Jane Fonda, 75 anos, existe um jeito novo de envelhecer. Nós, que estamos chegando aos 60 e fizemos a revolução dos costumes, temos que fazer a revolução da velhice também”. Ela recebeu o prêmio em São Paulo, numa cerimônia que homenageou Bibi e Jane Fonda.

Detentora de vários prêmios jornalísticos, Déa também é autora do livro “Coração de Mãe” (Editora Leitura, 2003). Déa tem um filho, Gabriel, que serviu e serve de inspiração para muitas de suas memoráveis reportagens.

Seu último trabalho foi como colaboradora da seção “Pra não dizer que não falei de crônicas”, do Jornalistas de Minas. Publicou duas crônicas, “Sonhos ressuscitados”, no dia 11 de setembro passado, e “Ah, como almejo o poder!”, no dia 16 de outubro, ambas muito comentadas e elogiadas pelos leitores. Clique AQUI para ler.

Déa era muito querida e dava muito valor aos amigos, como escreveu na sua última crônica: “Nunca dei muita importância ao poder, mas outro dia descobri o quanto ele é importante. Como faz bem ter poder. O poder de estar sempre rodeada de amigos, mesmo que neste momento mais virtuais do que presenciais … O poder de estar disponível para uma conversa no meio da rua, mesmo que o outro fale pelos cotovelos. O poder de ajudar o outro quando for preciso. O poder de trabalhar com o que gosto e ter a certeza de que jamais vou me aposentar de mim mesma”.

 

[4/11/20]

 

Veja também

Livro de reportagem sobre assassinato de Marielle escancara submundo do crime carioca

Os repórteres Chico Otávio e Vera Araújo lançaram nas livrarias, pela editora Intrínseca, Mataram Marielle ...

2 comentários

  1. O Sindicato fez certo de publicar este texto sobre a Déa. Inesquecível jornalista, cronista e amiga. Estamos de luto. Segue em paz.

  2. Maria Lúcia Nunes Gonçalves

    Fiquei muito triste com a notícia do falecimento de Déa Januzzi. Sempre li suas belas crônicas no Jornal Estado de Minas. Não a conheci pessoalmente, mas sempre tive admiração pelo modo sensível e humano com o qual escrevia.
    Foi uma grande perda, ficou um vazio, fiquei imensamente triste com sua ida tão repentina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *