A magia do sofá amarelo, por Rogério Perez

Há alguns dias saímos de mala e cuia, eu e minha esposa, da capital mineira, Beagá, em direção ao Sul de Minas, mais especificamente para a cidade de São Vicente de Minas.

No encontro entre as ruas Sete de Setembro e Marcelino Champagnat, tem uma aconchegante varanda que não só trouxe um novo conceito de isolamento em tempos de pandemia, mas me proporcionou um novo local de ver como a vida pode ser de paz e tranquilidade: o sofá amarelo.

Daquele sofá, imponente na varanda, é possível idealizar um mundo melhor. Cedinho, aquela caminhonete azul, em seus diversos tons, antiga e barulhenta apresenta a sinfônica e harmônica batidas de latões de leite. Base de uma economia que possui três laticínios, fazem a alegria de muitos, e agora de um casal vindo da capital mineira, que se revezam na ida aos supermercados para comprar os tradicionais e saborosos queijos finos.

O sol matinal parece que emite raios de alegria e felicidade nas resenhas com meus netos, familiares e amigos que se encontram com o devido distanciamento e com as originais máscaras contra o COVID nos rostos.

O dia segue, com a mesma rotina da cidade grande, mas aquele sofá amarelo, consegue fazer tudo mais calmo e tranquilo, sem aquela correria de moto, barulhos intermináveis de ambulância e toda a loucura da cidade grande. Dele, é possível contemplar cada fisionomia, cada olhar e o canto de diversas espécies de pássaros.

Próximo ao horário do almoço o ilustre tucano sobrevoa a varanda perseguido pelas falantes maritacas. O sofá amarelo permite imaginar o trajeto daquele morador tradicional da cidade, que fica sempre caminhando de um lado para outro sem um rumo definido, apenas pelo prazer de ver quem ele não viu no dia anterior. Todos sabem quem ele é, e ele sabe a procedência de muitos que o cercam para um bate papo pelas ruas da cidadezinha. Este escriba é conhecido por ele como o marido da filha do saudoso vendedor de cimentos da cidade que residia na rua principal.

No sofá amarelo, recebo um aceno do motorista do jipe, que na sequência me mostra que a buzina é mais barulhenta que o motor daquela geringonça. O jovem sorridente segue para a entrega do líquido que conheci como cerveja caseira e que hoje é conhecida como cerveja artesanal. No rótulo a identificação “Pedacim do Céu” como os moradores carinhosamente denominam a cidade que resolvi morar.

O sofá amarelo me mostrou que mesmo estando em uma cidade com menos de uma dezena milhar de habitantes convivo com muito mais gente diariamente de quando estava residindo na capital com seus milhões de habitantes.

Naquela varanda não existe isolamento e sim um sonhar diário de esperança com certeza que dias melhores virão.

E você já achou sua varanda? Então comece procurando o seu sofá amarelo…

 

[20/11/20]

 

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16 comentários

  1. As minhas sextas ficaram mais alegres com a iniciativa do sindicato e atitude do Ivan Drummond. Ler uma crônica é como ter um sonho acordado . Bons tempos em que diariamente podíamos apreciar a crônica atualizada e cotidiana do Rogerio e dos grandes cronistas que estão mantendo os nossos sonhos as sextas . Parabéns ao Perez e todos que estão participando do projeto. Viva

    • Crônicas como esta seguem em falta nas redações dos jornais de hoje. Uma pena. A simplicidade da vida, relatada com tanta simplicidade, nos mostra como a vida moderna nos aprisiona. Parabéns, professor Rogério. Pela crônica, pela liberdade e pela nova vida.

  2. Luiz Fernando de Andrade

    Muito bom! Saudades de Diamantina! Parabéns!

  3. Excelente crônica! O ar do interior com certeza fará melhor ao jornalista e já causa “inveja” nos amigos “presos” nas cidades grandes!

  4. Aí, Bacho. Enfim, conosco. Recebo com olhos e braços abertos:

  5. Aí, Bacho. Enfim, conosco. Recebo-o com olhos e braços abertos. (Tive que repetir, coisa de analfabeto digital)

    • Luiz+Ferreira+Silveira

      O texto de Rogério , muito bem escrito e articulado, lelou-me a viajar nas conversas de vários encontros entre Carlos Drumond e Pedro Nave. Ainda jovens, brincavam no arco do viaduto de Santa Tereza à procura de um sofá , em um canto qualquer, na cidade de Rio de Janeiro.

  6. Parabéns, RP… linda crônica!

  7. Excelente crônica. O Rogério Perez sempre descrevendo bem as situações e nós transmitindo uma forte realidade através de Deus textos. Gostaria decree um sofá amarelo também.

  8. Excelente texto Rogério Perez!!! As vezes uma simples varanda e um pequeno sofá, nos fazem repensar a nossa forma de vida e de como pensar o mundo.

  9. Adorei o texto! Conseguiu me trazer uma leveza na alma indescritível.

  10. Leonardo Soares Nogueira Silva

    Que texto bacana! Bela reflexão! Dias melhores virão!

  11. Pois é “Baixo”, faltava você aqui. Pra dar aquele “cabeçaço”. Agora quero Daniel Gomes, também, e Danilo Andrade.

  12. Eliana Mirian Lara de Araújo

    Rogério sua escrita nos traz romantismo ao coração,coisa que fica muito escondida na vida de cidade grande e revela que a felicidade interior é simples Estou diante de um livro : Amor na Vitrine e o sofá amarelo combina com este título. Um grande abraço a todos

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