Papo de mineiro, por Carlos Herculano Lopes

Quando o ônibus parou naquela lanchonete perto de Curvelo, depois de ter saído bem de manhãzinha de Matias Cardoso, ou talvez de Capitão Enéas, fazia um calorão daqueles, do qual todos os passageiros estavam reclamando. Nem sinal de nuvem no céu. Nas vastas terras do norte mineiro, de onde vinham, imperava a seca, com plantações e gado morrendo. Conseguir uma lata d’água, só mesmo para fazer comida, representava um sacrifício e tanto. Às vezes, era preciso andar léguas. Mas nem toda essa tragédia, que não é novidade para ninguém, pois se repete praticamente todos os anos, tirava o humor daquela gente.

Foi então que, depois de ter ido ao banheiro, onde lavou o rosto e fez xixi, aquele homem que vinha tentar a sorte em Belo Horizonte, onde um amigo havia lhe prometido arranjar um emprego, encostou-se no balcão da lanchonete. As outras pessoas faziam seus pedidos, todas ávidas por ser atendidas. Como sentia fome, pois a última refeição havia sido de madrugada, quando deixou sua casa na periferia de Matias Cardoso, ou, quem sabe, de Capitão Enéas, ele passou os olhos pelas opções oferecidas. Era o de sempre: pão com salame, coxinhas, pastéis fritos, sanduíches e empadinhas.

Como toda vida gostou deste petisco, que lhe fazia lembrar a infância, quando nos dias dos aniversários em sua casa, apesar da pobreza, a mãe nunca deixava de comprar, aquele homem resolveu pedir uma empada acompanhada de refrigerante. Mas, antes, perguntou à menina que atendia: “De que são essas empadas?”. Ao que ela, como devia fazer várias vezes ao dia, respondeu: “De frango, queijo, palmito e bacalhau”.

“É mesmo? E você sabe, filha, se esse bacalhau foi pescado aqui mesmo, no rio das Velhas?”, indagou o homem com a cara mais lavada do mundo. “Acho que não, moço. Pai falou lá em casa, estes dias, que com esse frio não está dando mais peixes; só se for do São Francisco”, disse a mocinha, na maior inocência.

“Ah!, é?, não diga”, prosseguiu o homem, talvez surpreso com o inusitado da resposta, que saiu na ponta da língua da menina. Em seguida, a mesma, atarefada como nunca, já estava atendendo outros clientes, de mais um ônibus do norte, que tinha acabado de chegar. E nessa hora um velho de barba rala, que escutara aquele diálogo em silêncio, enquanto tomava uma média de café com leite, virou-se para ele, esboçou um sorriso e disse: “Desculpe-me, mas ouvi a conversa do senhor com a moça…”.

“Pois não, amigo”, disse o homem. Ao que o outro, sem vacilar, afirmou, também com a cara mais séria deste mundo. “Não é só bacalhau, mas tudo quanto é peixe existe aqui no Das Velhas. O que ocorre é que o povo, hoje em dia, não tem mais paciência para armar o anzol e esperar”. Aí a conversa, quando ia tomando outros rumos, foi interrompida pelo trocador, chamando os passageiros para o embarque.

 

Carlos Herculano Lopes, jornalista escritor, é autor, entre outros, dos livros Coisa do bicho, Sombras de julho, O pescador de latinhas, e O vestido.

 

[2/10/20]

 

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3 comentários

  1. AÍ, Zoim. Manda uma de palmito. Porque peixe, em tempo de águas rasas, dá pra desconfiar.

  2. Sempre um ótimo contista. Parabéns

  3. Mirtes+Helena+Pereira+Scalioni

    Adorei, Herculano. Humor finíssimo.

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