Pesquisa mostra efeitos da crise nas trajetórias profissionais dos jornalistas brasileiros entre 2012 e 2017

Metade de 517 jornalistas que trabalhavam em redações em 2012 tinha migrado para assessoria, docência ou atividades não-jornalísticas cinco anos depois. O grupo que abandonou a profissão representa quase um terço do total. As mulheres foram as mais afetadas pelas mudanças, houve uma “juvenilização” das redações, houve cortes nos postos de salários mais altos, mas os profissionais que permaneceram não sofreram redução salarial.

Essas conclusões estão no artigo “Os jornalistas brasileiros em contextos de crises: uma análise das trajetórias profissionais de 2012 a 2017”, publicado no dia 10 de setembro pelos pesquisadores Camilla Quesada Tavares, da Universidade Federal do Maranhão, Cintia Xavier e Felipe Simão Pontes, ambos da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR).

O artigo pode ser lido clicando aqui: https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/2040/1996. A pesquisa não recebeu financiamento de nenhum órgão de fomento.

Os pesquisadores compararam dados obtidos em questionário online realizado em novembro e dezembro de 2017 com dados do Perfil do Jornalista Brasileiro, a mais ampla pesquisa já feita sobre os jornalistas brasileiros, em 2012. Dentre os 4.200 respondentes válidos da pesquisa do Perfil, 1.233 responderam a nova pesquisa em 2017. Destes, 517 declararam em 2012 que atuavam como jornalistas na mídia (não eram assessores de imprensa, docentes ou estavam fora do jornalismo – desempregados, em estudo, aposentados ou em outra atividade não jornalística).

O objetivo da nova pesquisa foi saber onde esses profissionais estavam em 2017, bem como conhecer as características do seu trabalho, considerando a crise que atinge a profissão nos últimos anos. Segundo os pesquisadores, “é possível demonstrar aproximações entre a literatura sobre crise e os movimentos realizados pelos jornalistas, no decorrer dos cinco anos”.

“Acreditamos que esses dados são muito expressivos, considerando o curto intervalo de tempo entre um levantamento e outro”, afirma o artigo.

O primeiro ponto que chamou atenção dos pesquisadores é que mais da metade dos que trabalhavam como jornalistas em 2012 estavam em assessoria, na docência ou em atividades não-jornalísticas em 2017 – este último grupo representou 30% dos casos. As mulheres foram as mais atingidas, o que, segundo o artigo, exige estudos específicos que reflitam sobre as carreiras das jornalistas e aprofundem dados.

“Consideramos este um percentual muito alto, pois observamos que praticamente um terço dos jornalistas não deixaram a atividade tradicional de jornalista de mídia, mas sim a profissão em si”, afirma o artigo. “Outro dado considerável é que dos que saíram do jornalismo pouco mais da metade está empregada, mas a outra metade está sem renda (desempregada ou em estudo).”

Juvenilização e salários

Dentre os profissionais que permaneceram em atividades jornalísticas na mídia, os pesquisadores constataram o processo de juvenilização das redações, fato percebido também pelos próprios profissionais. Segundo o artigo, isso reforça a ideia de que há um “teto de vidro” nas hierarquias superiores do jornalismo e de permanência na redação conforme o profissional avança na carreira, ideia confirmada “pelo alto índice de profissionais fora das atividades jornalísticas na mídia passados cinco anos de carreira”.

Houve um achatamento salarial nas redações, pois, segundo o artigo, “praticamente todos os jornalistas que estavam na mídia em 2012 ganhando mais de 20 salários mínimos saíram da profissão ou passaram a ganhar menos”.

No entanto, de forma geral, os jornalistas que estavam na mídia em 2012 e permaneciam em 2017 passaram a ganhar mais. Também não houve aumento da carga horária de trabalho – que era alta em 2012 e teve leve redução em 2017.

“Compreender o motivo que levou a esse resultado – como, por exemplo, a mudança de cargo – é essencial para entendermos essa ascensão, algo que vai além dos propósitos deste trabalho”, afirma o artigo.

Os pesquisadores observam que o impacto do salário e carga horária fica mais claro quando se olha para os profissionais que estavam na mídia em 2012, mas que saíram no intervalo de cinco anos. “Daqueles que deixaram os veículos jornalísticos, mais da metade mudou de profissão. Os restantes migraram para as assessorias ou foram para a docência – dentre estes, o salário aumentou e a carga horária diminuiu.”

O artigo aponta uma aparente mudança de gênero na profissão. De acordo com o Perfil do Jornalista Brasileiro, em 2012 predominavam mulheres exercendo atividades jornalísticas na mídia, elas eram diplomadas por instituição particular, a maioria tinha uma única fonte de renda, com uma variação de 2 a 10 salários mínimos e com carga horária diária de trabalho de 5 a 8 horas. Cinco anos depois, os mesmos respondentes que ainda atuavam na mídia foram reduzidos a menos da metade, eram na maioria homens, com carga horária de trabalho semelhante a 2012, de 5 a 8 horas, predominantemente com uma fonte de renda e com média salarial de 3 a 10 salários mínimos.

Segundo o artigo, os resultados da pesquisa dão indícios de como os jornalistas brasileiros foram afetados pela crise nos últimos anos. “O objetivo não é oferecer um resultado generalizável, mas sim evidências para compreender por onde andou e o que mudou na carreira desses profissionais”, afirmam os pesquisadores, que pretendem produzir, em textos futuros, “análises mais aprofundadas sobre essas mudanças na trajetória, já que a crise atingiu os jornalistas que atuam em diferentes áreas, levando uma parcela significativa a abandonar a profissão”.

Perfil do Jornalista em 2012

A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro (2012) foi realizada pelo Núcleo de Estudos sobre Transformações no Mundo do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (TMT/UFSC) em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e com apoio do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) e da Associação Brasileira de Pesquisadores do Jornalismo (SBPJor). Coordenada pelo o jornalista Jacques Mick, professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela foi publicada em livro com o mesmo nome, em 2013.

Considerada a mais ampla pesquisa já realizada sobre os jornalistas brasileiros, Perfil do jornalista brasileiro – características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012 apresenta conclusões observadas a partir da contribuição de 2.731 respondentes, com foco em três segmentos da profissão: mídia, ambientes fora da mídia e docência.

Clique no link para ler a síntese do livro: https://perfildojornalista.ufsc.br/files/2013/04/Perfil-do-jornalista-brasileiro-Sintese.pdf.

As principais constatações do trabalho foram que o jornalismo brasileiro era então formado por 36% de homens e 64% de mulheres; 98% dos profissionais tinham formação superior, dos quais 91,7% graduados na área; a grande maioria dos entrevistados defendia a obrigatoriedade de formação universitária para exercer a profissão, sendo que 55,4% exigiam diploma específico em jornalismo; 59,9% dos jornalistas recebiam até cinco salários mínimos; 55% atuavam em mídia (veículos de comunicação, produtoras de conteúdo etc.), 40% fora da mídia (assessoria de imprensa/comunicação ou outras ações de conhecimento jornalístico) e 5% trabalham como professores.

 

[17/9/20]

 

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Um comentário

  1. Fazia tempo que eu vinha procurando um trabalho consistente como esse para falar sobre a situação atual da profissão.

    O resultado desse estudo é muito pertinente e convidativo para profissionais e entidades ligados a nossa categoria fazerem uma profunda reflexão sobre o momento crítico por que passamos nós, jornalistas.

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