O ressuscitado, por Dalila Abelha

Determinado a vingar-se da insólita e infeliz existência, olhou mais uma vez o retrato da mãe que trazia sempre na carteira, tocou-o suavemente com o polegar e o colocou no bolso da camisa que usava.

Depois, deixou-se cair na velha poltrona de couro marrom, herdada do pai, um dos poucos objetos que levou consigo do lar desfeito. Olhou para a corda presa à torneira de um registro, no banheiro, com o nó já feito, e chorou, como nunca antes o fizera.

Não deixaria carta de despedida com explicações sobre seu gesto extremado. Não havia pra quem escrever ou telefonar. Observou sua imagem refletida no visor do celular, os cabelos grisalhos desgrenhados, as olheiras profundas e se disse adeus, atirando o aparelho contra a parede.

Apoiou as mãos nas laterais da poltrona para se erguer, mas deteve o olhar na caixa de papelão ainda fechada, onde recolhera seus poucos pertences, e decidiu retirar a fita que a lacrava.

Removeu envelopes contendo velhos documentos, colocou-os ao lado da caixa, pensando em reduzi-los a cinzas, amontoou ao lado os livros que nem chegou a ler, se deteve no “Cem Anos de Solidão”, que recolheu com cuidado. Dentre todos, aquele foi o único que conseguira ler até o fim nos últimos dez anos, um presente do pai em seu aniversário de vinte anos.

Correu os olhos pela carinhosa dedicatória, que sabia de cor: “Um ícone da literatura para um aprendiz de escritor de que me orgulho”. Impediu que uma lágrima a mais lhe deslizasse dos olhos e seguiu a esvaziar a caixa, sentado no tapete deixado pelo morador.

Com as pernas cruzadas e sobrepostas, tateava os objetos até encontrar algo que julgava perdido: o cachimbo do avô materno, o homem mais sábio que conhecera. Recordou os momentos em que se aconchegava entre as pernas do ancião, médico dedicado e grande filantropo, a ouvir suas divertidas estórias.

Lembrou a explicação do avô à sua indagação sobre como era Deus. “Eu acho que Ele é sério e brincalhão e que Ele nos elegeu seus assessores”.

Apertou o cachimbo adornado por um anel dourado, afagou-o junto ao peito e depositou-o sobre o livro de Garcia Marquez.

Separou cartões recebidos, incluindo os mandados pela irmã que morava em Portugal, juntando-os às cartas que escreveu e nunca enviou.

Entre elas, a destinada à única mulher que supôs amar, a carioca Madalena, com quem rompeu para se casar com uma namorada de infância, recatada e tímida, que mais tarde o trairia com seu melhor amigo.

Vasculhou em vão a caixa à procura de uma fotografia de Madalena, uma jovem espontânea e inteligente que o deixava inseguro, e suspirou.

Perdida entre as cartas, caiu-lhe às mãos uma fotografia documentando um momento de carinho entre ele e a avó materna. Sentiu uma ponta de amargura por ter se distanciado daquela mulher forte e bonita, embora autoritária, de não ter dito a ela o quanto a amava.

No fundo da caixa, encontrou o caderno de poesias do bisavô Manoel, um português culto e introspetivo, que não chegou a conhecer.

Sorriu ao se lembrar da noite em que a mãe acordou sua irmã para urinar – ela fez xixi na cama até aos 14 anos. Atordoada, a menina arrastou a mala que ficava debaixo da cama, abriu-a e, acreditando estar usando o urinol, agachou-se dentro dela, molhando de urina vários escritos do bisavô, incluindo o caderno de poesias.

Por fim, tomou às mãos os alfarrábios de romances que ele planejou publicar, mas nunca os concluiu, e recolocou-os de volta ao envelope, juntando-os aos recortes de matérias que marcaram sua trajetória de repórter.

Levantou-se do chão em que estivera sentado por cerca de duas horas, olhou fixamente para a corda e o banquinho em que se sentaria como seu último ato; examinou o nó que fizera, percebeu que estava frouxo, e desatou-o.

Caminhou até à janela da sala, que pela primeira vez se animou a abrir, e pôs-se a contemplar o pôr do sol. Permitiu-se, então, sem dor, dizer adeus ao jornalista aguerrido, vaidoso e triste, para reencontrar o contador de estórias que esteve sempre dentro dele, como vaticinou o saudoso pai.

 

[25/9/20]

 

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4 comentários

  1. Marcia Duarte Lage

    Muito bom, Dalila. Mais conto que crônica, com boa surpresa no final.

  2. Dalila, continue explorando sua veia criativa. Parabéns.

    • “Permitiu-se, então, sem dor, dizer adeus ao jornalista aguerrido, vaidoso e triste, para reencontrar o contador de estórias que esteve sempre dentro dele, como vaticinou o saudoso pai.”
      Que maravilha de historia Dalila! Aguardo que o jornalista assim ressuscitado em Contador de Historias, continue a nos brindar com sua deliciosa imaginação.
      Abraço de Genoveva

  3. Bons textos, Dalila, parabéns

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