Marcelo Dolabela, uma elegia

Análise da poesia dadalobeleana

por Carlos Barroso*

Quando bate martelo para um poeta da qualidade de Marcelo Dolabela, pode-se pensar no eterno.

Marcelo Dolabela é um dos raros poetas brasileiros contemporâneos com régua e medida para transcender o seu tempo.

Certamente, há Augusto de Campos – o maior mestre, desconvexo (tomando emprestado de Caetano Veloso), da poesia praiana. E o mineiro Sebastião (Tião) Nunes (Nuvens), que desandou para Portugal, porém voltou. Dentre outros, em poéticas terras ensolgarçadas do Brasil.

Tivesse Marcelo Dolabela (Lajinha/MG – 17/9/1957 – 18/1/2020) se radicado – como fizeram muitos mineiros – em São Paulo ou Rio de Janeiro, sem dúvida seria mais comemorado. Se é que isso importasse ao poeta.

o poeta tem no sangue

a sífilis de sua geração,

e não há fuga, nenhuma paixão,

que o tirará deste mangue.

sempre irá no seu galope

este castigo infeliz:

se curar-se dessa sífilis,

só fabricará xarope.

(1984, Radicais)

*

À maneira de Odair José

Se ela é meu vício

e só me dá serviço

ninguém tem nada com isso

– Táxi,

Siga aquele tóxico.

(1985/1994, Lorem Ipsus, 2006)

Dolabela fez um trabalho que transpôs a poesia; transando adoidamente a poesia.

Um artista multidimensional.

Metáforas futebolísticas se encontram puídas, mas já que ele amava futebol, não é muito dizer que jogava em todas as posições, do gol à ponta esquerda (principalmente). Também batia os pênaltis (diz a máxima que pênalti é tão importante que teria de ser batido pelo presidente do clube).

Desde a fundação da Revista Cemflores (1977/78) – que se opunha de forma veementemente poética à ditadura militar (sem apelos popularescos, as edições “Pirata” e “Greve” da revista eram distribuídas em manifestações e paralisações trabalhistas), em grupo editorial que participei, ao lado Luciano Cortez e Avanilton de Aguilar, Marcelo Dolabela partiu para o todo.

Disse: “Cemflores foi meu jardim de infância, minha madureza e doutorado” em poesia. “Tudo banhado no ácido de ser a alegria da prova dos nove”, completou, em edição recente, temporã, da revista.

Poesia, música, arte contemporânea, arte-postal, cinema, teatro, pesquisa, laboratório de poesia, liderança, influências tais/quais, política (com “P” maiúsculo), corpo discente e docente eram sua praia – sol, mar, rios e montanhas.

Um artista da Grécia clássica em Belo Horizonte, poesia e política na agulha poética. Um dadaísta – Dadalobela, como gostava de ser chamado – atinado (com naturais atritos) com as vanguardas. Porém, surpreendentemente, ele se considerava, como me disse mais de uma vez, um “poeta simbolista.”

Já nessa época, no “jardim de infância” a que se referiu, Dolabela publicou um poema de cercanias concretas, que, necessariamente, teria de constar em qualquer antologia sobre o movimento.

Tensão e síntese, na luta de classes poética em um trabalho que desnuda uma grande siderúrgica na Belo Horizonte da época.

Marcelo Dolabela publicou mais de 50 livros, a maioria de poesia, desde certeiros livretos e plaquetes da geração mimeógrafo, até obras de fina estampa gráfica (sem qualquer menosprezo à artesania), como é o caso de Lorem Ipsus: antologia poética & outros poemas (BH: Edição do Autor, 2006). E muitos outros clássicos, Poeminhas & outros poemas, Radicais, Duchas Duchamp, Acre ácido azedo, para ficar em alguns títulos.

Sim, meu país é a guerra

sim, meu país é a guerra

luz que já não ilumina;

presente que não espera a hora

que tudo termina;

não, meu país é a guerra:

cabeça sem aspirina;

cérebro que desespera,

quando dorme a retina;

vê, meu país é a guerra:

batalha sem Hiroshima,

onde a dor não salva quem erra;

berro que berra na narina;

ar, meu país é a guerra:

terra, teu nome é ruína.

(1994, Lorem Ipsus, 2006)

O haicai, maravilha oriental que se espraiou e montanhou no Brasil, foi outra poética que produziu com a maestria.

Testemunhei Dolabela produzindo um livro, com dezenas de haicais, em um curto voo Belo Horizonte-Florianópolis. O objeto Hai Kaixa (1993), com 100 haicais incrustados em uma caixinha de fósforo, é obra de puríssimo deleite.

Pronto Socorro Maysa

Senhora dos Aflitos

tire os olhos dela

de dentro de mim
(Hai Kaixa, 1993)
*
abaixo a carestia

chega de comer angú

stia e solidão
(Hai Kaixa, 1993)
*
papel em branco

a memória da árvore

brilha
(Hai Kaixa, 1993)

Aviso a quem navega no cabo das tormentas da poesia: nenhum desses trabalhos, mesmo instantâneos, era feito ao desdém do ócio e do descuido. Puro apuro. Outro livro-objeto nessa mesma pegada, belíssimo, e raro (24 exemplares), é ode (em forma de valsa) à buceta (2011), escrito de uma levada só, em três horas, três cervejas, um boteco, segundo descreveu Dolabela. Publicado sem revisar. “Revisar um tema desse é uma ofensa, de um gozo não se arrepende”, ele escreveu no preâmbulo.

2.

Tema mote glosa

bônus sêmem goza

terra que se lavra

carne da palavra

tônus totem glosa
(ode (em forma de valsa) à buceta, 2001)

*
Fome: tudo come

tens mais de mil nomes

amor de delícia

veludo de carícias

ar que tudo come

(ode (em forma de valsa) à buceta, 2001)

O poema que segue foi dedicado ao poeta beatnik Paulo Leão, que vivia nas ruas de Belo Horizonte. Foi feito após Dolabela e um grupo de amigos buscarem, com muita dificuldade estrutural, um lugar para ele morar. Mas Leão voltava sempre ao cenário das ruas, onde convivia com punks e artistas mambembes.

Marcelo gostava de encerrar suas leituras de poemas com esse texto. Ele também escreveu e codirigiu um filme sobre Paulo Leão. Busco esse poema, nessa análise, porque, além da beleza (a ironia Dadalobela), fica uma inquietação. Trata-se de solidariedade entre os sempre-deslocados?

Asilo Arkham (Redundância #2)

a Paulo Leão

mudamos de casa

mudamos pra a casa ao lado

mudamos pra galeria em frente

mudamos pro Bairro da Saudade

mudamos pro Cemitério da Paz

mudamos de Curral del Rey

mudamos pro andar de cima

mudamos pros fundos

mudamos a cor do cabelo

mudamos de ramo

mudamos de telefone

mudamos e não te convidamos

mudamos de sexo

mudamos de droga

mudamos a roupa de cama

mudamos a mobília da sala

mudamos pro Asilo Arkham

mudamos enquanto era tempo

mudamos o canal de TV

mudamos a faixa do rádio

mudamos de ideia fixa

mudamos a página do livro

mudamos de ilusões perdidas

mudamos pra melhor atender

mudamos e compramos dólar

mudamos porque o mundo gira

mudamos porque a lusitana roda

mudamos de medicação

mudamos de pó de café

mudamos e passamos o ponto.

(Lorem Ipsus, 2006)

*

Baladilha à maneira de W. M.

eu tenho mais versos pra escrever
que dor ou arrependimento
se tu me dizes que me amas
penso sempre em fingimento
mas se berras que me odeias
eu tenho o mesmo sentimento

eu tenho mais boca pra comer
que dente sal e alimento
se eu não divido minha cama
é porque adoro o relento
e quando serves a ceia
prefiro um outro argumento

pois eu tenho mais versos pra escrever
com o nanquim do meu tormento

(Lorem Ipsus, 2006)

Dolabela transitou no cinema, como roteirista e codiretor, com a maestria de sempre. Entre seus filmes mais conhecidos, Maldito Popular Brasileiro, sobre o mutante Arnaldo Batista; Adeus América; Plano Sequência (curta) e o vídeo Política destruiu nosso amor, todos esses em parceria com a cineasta Patrícia Moran.

Foi também autor do texto do curta-metragem Uakti – Oficina Instrumental, de Rafael Conde, prêmios de melhor filme e melhor montagem, em 1987, no Festival de Gramado.

Esse plano, surreal e disforme, é do filme Adeus América.

Entre obras-objeto que produziu, de intensa e intrínseca poesia, está a caixa Letrolatria (2000), que faz uma “misturação” semiótica de arte&poema, se tornando, no meu entender, um destaque na linha de frente da produção de vanguarda do País. É um trabalho que ele amava.

Em 1987, Dolabela publicou o já clássico ABZ do Rock Brasileiro, uma enciclopédia sobre a música, astros, alguns famosos (ou quase) e outros raros desconhecidos. Principal referência para o rock brasileiro, antes da internet, é um livro-base que buscou pérolas em pormenores musicais, com minibiografias, fatos e personagens até mesmo extemporâneos. Nomes consagrados escreveram os prefácios de ABZ: Arnaldo Antunes, Zé Rodrix e Tony Campello.

Dolabela trabalhava em uma segunda edição ampliada do ABZ, quando adoeceu. Tempo, tempo, tempo.

A música foi, portanto, entre as variadas faces-facetas do poeta, uma das mais envolventes. Ele fundou e integrou bandas e grupos seminais de rock-pós-punk, como é o caso dos emblemáticos Sexo Explícito, Divergência Socialista, Último Número e Caveira, My Friend, por onde passavam experimentações e buscas de vanguarda. E dá-lhes rock, MPB, arte e poesia.

Registros do som/poesia desses trabalhos são preciosidades e requintes encontrados no Youtube, na bacia quente do pop-rock nacional; muitos artistas buscam ali história e inspiração.

Pode-se dizer, portanto, que, com sua liderança, Marcelo Dolabela criou uma legião (desurbana?) de influências e contrainfluências na música, rimando sempre com a poesia.

No desabrochar da Cem Flores (“Que cem flores desabrochem e cem escolas de pensamento rivalizem”, frase de Mao Tsé-Tung inspirou o nome da revista, embora não houvesse ali maoista), a música já era referência para Dolabela. Nomes que despontariam no rock e punk mineiros, muitos ainda estudantes secundaristas, se aproximaram da revista universitária de poesia & arte. É o caso de John Ulhoa, que se tornaria nome conhecido da banda Pato Fu. Outros também chegaram atraídos pelas letras e lances de Dadalobela.

O CD Substância reúne parte desse trabalho.

Letra de Marcelo Dolabela:

Heidegger’s song#1 e 2

1

palavras escritas

em restos de nuvens

transformam as letras

em pedras de sal

os ventos que vêm

sob os pés da memória

sopram as pétalas

do azul do caos

os anjos que olham

os escombros da história

vão além da lei

do bem e do mal

as palavras da tribo

o nome de Deus

o eterno carimbo

impresso no céu.

2

como falar da verdade

na casa de Scheherazade?

como falar de pecado

na casa de enforcado?

como falar de consciência

na casa da violência?

como falar pro poeta

de sua obra completa?

como falar de amor

no lar do torturador?

como falar de cultura

na casa da ditadura?

como falar de ruído

pra quem não tem mais ouvido?

como falar poesia

depois do fim da utopia.

(2001, Lorem Ipsus, 2006)

Nessa linha múltipla, Dolabela participou, além de Cemflores, de outras revistas de poesia e arte, como AquiÓ, Alegria Blues Band, Fahrenheit 45, Inferno e DezFaces, por onde passaram escritores e artistas, em intrépido leque da cena belorizontina. Em todo esse batido (da bateria do rock ao tambor da poesia), circularam a seu redor gerações de músicos e poetas.

Na arte contemporânea, ele participou de várias exposições, como Coletiv4, em São João del-Rei, em 2015. Totem, um objeto de Marcelo Dolabela exposto na cidade histórica, dá a medida da qualidade artística do poeta.

O seu trabalho de arte postal é conhecido internacionalmente e foi exposto em salões nacionais e internacionais – Estados Unidos, Canadá, Japão, Peru, Uruguai, Bélgica, França e Portugal.

Em 2007, ele reuniu boa parte do trabalho com carimbos (muitos utilizados em seus postais) no livro Carimbós. Dolabela defendeu na época que, mesmo sendo referencial no dadaísmo e outras vanguardas, erroneamente, poucos poetas trabalhavam com essa técnica.

Em 2006, em Marginália e Experimentação: a Poesia e o Movimento Estudantil, exposição organizada pela UFMG, Dolabela dispôs pesquisas que fez praticamente durante toda a vida, em 40 anos de poesia marginal&mimeógrafo, na parceria com o projeto República, da historiadora Heloísa Starling.

Ele também foi curador – arti(sta)fície com seu imenso acervo – da exposição História do rock brasileiro em 1 mil discos, no Centro Cultural UFMG, em Belo Horizonte. A mostra apontou o panorama do rock-pop brasileiro, desde 1955, a partir da discografia reunida.

Em entrevista, Dolabela definiu seus cinco discos prediletos (em meio a mil): Tropicália ou Panis et circenses (1968); Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972);

Araçá azul (Caetano Veloso, 1972); Severino (Paralamas do Sucesso, 1994) e

Roots (Sepultura, 1996). Na lista “ecumênica” dá para sacar o gosto estético do poeta amante do rock.

O pesquisador e escarafunchador profissional de arquivos, sebos, discotecas, depósitos, bancas de jornais e congêneres é uma face pouco conhecida de Dolabela, embora os amigos soubessem de tais (quase) vícios.

Em seu “escritório” montado no bar Xok Xok, no saguão do Edifício Arcângelo Maletta (espaço histórico da cidade para a literatura e política), em 10 mil e uma noites de poesia-boemia, ele recebia a visita compassada e sistemática de poetas, escritores e músicos, que confabulavam sobre projetos, pediam opiniões e trocavam chumbo (metafóricos; não fascistas) poético-artístico-musical.

Ele fez vários poemas e músicas sobre o Maletta, (re)visto por ele de forma poética e até trágica, pontuando toda sua obra.

Maletta revisited #86

eu estou: nas maravilhas do mundo

no Coliseu da cidade

no naufrágio dos poetas

ouvindo Scheherazade

é o zum-zum da matilha do mundo

da Muralha da China, o barulho,

a baunilha dos vagabundos

única geração que ouve

a triste balada dos mouros

o transplante das décadas

a Arcádia sem fé e sem ouro.

(Poeminhas & outros poemas, 1994)

 

Clique AQUI para ler a íntegra na revista Mallamargens.

 

*Carlos Barroso é poeta, artista e jornalista. Organizou a Mostra de Arte dos Jornalistas Mineiros, no SJPMG. Participou das revistas CemFlores, CemFlores Pirata, AquiÓ. Publicou Poetrecos, Carimbalas; Sãos, Usura e Livraria; Futebol de Barro, Cunilíngua Pátria – 69 poemas. Foi repórter político nos jornais Hoje em Dia, Diário da Tarde, Estado de Minas, comentarista da Rede Bandeirantes, apresentador do programa Cena Política (BHNews TV).

[21/9/20]

 

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