Ato em solidariedade à jornalista Patrícia Campos Mello reúne mulheres na sede do SJPMG

Mulheres jornalistas e de outras profissões deram o primeiro passo para formar uma Frente Progressista de Mulheres de âmbito nacional em defesa da democracia. O encontro aconteceu na Casa do Jornalista, na tarde de sexta-feira 28/2, liderado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais e pelo  movimento Quem Ama Não Mata. Encontros semelhantes acontecem em outras cidades do país e têm como motivação manifestar solidariedade à jornalista Patrícia Campos Mello, atacada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores.

A presidenta do SJPMG, Alessandra Mello, alertou que o Brasil vive um momento de escalada de ataques à democracia parecida com a que precedeu o AI-5, em 1968.

“Há um ataque orquestrado contra jornalistas, em especial contra as mulheres jornalistas”, denunciou, lembrando que as mulheres constituem a grande maioria da categoria. “Os ataques contra as mulheres jornalistas são piores, mais violentos, misóginos.”

A jornalista Márcia Cruz, presente ao encontro, disse que sentia muito orgulho porque os ataques estão sendo feitos contra mulheres jornalistas que denunciam como o presidente Bolsonaro não é democrático. “Nós, mulheres, fizemos tudo que podíamos para que ele não fosse eleito, essa culpa não é nossa”, ressaltou.

Ela disse que ser mulher e jornalista nunca foi fácil. “Sofremos assédio de colegas e de fontes. Essa é uma batalha que se trava há muitos anos nas redações”, afirmou.

Ela acrescentou que parcela ampla da sociedade não entende o papel dos jornalistas. “Nosso papel é dizer o que é o jornalismo”, afirmou. “A democracia não existe sem o jornalismo.”

A jornalista defendeu a realização de atos em todo o país para denunicar a violência contra as jornalistas. “O movimento Quem Ama Não Mata foi fundamental no passado e é hoje outra vez.”

Leilane Paegle, representante do movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero, manifestou a solidariedade das mulheres evangélicas à jornalista Patrícia Campos Mello.

“Quando uma jornalista é ofendida, cada mulher é ofendida também”, disse.

Ela denunciou que o Evangelho vem sendo usado de forma muito negativa pelo governo e disse que as igrejas não podem servir de palanque.

“As evangélicas não são uma massa homogênea, muitas têm repudiado o uso político do Evangelho. Não admitimos que o Evangelho seja usado para defender essa política de morte”, afirmou.

Bernadete Monteiro, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), disse que a onde de ataques contra jornalistas é só uma uma expressão do golpe do 2016. “No centro do impeachment da presidenta Dilma estava uma ofensiva contra as mulheres, que dizia que as mulheres não são capazes”, denunciou.

Ela disse que, infelizmente, a onda autoritária não vai passar automaticamente, com o tempo. “A liberdade de expressão só vem da luta. Para estarmos aqui hoje, muitas mulheres lutaram antes”, afirmou, convidando as presentes a participarem das atividades que marcam os 20 anos da MMM, em 2020. A Marcha está presente em 150 países.

A advogada Isabel Araújo, representante da Rede de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, lembrou que as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932 e que o espaço das mulheres na política está ameaçado.

“O papel da imprensa na democracia é propiciar a criticidade”, disse. “O ataque às jornalistas é um ataque geral à imprensa e à dignidade das mulheres.”

A advogada denunciou o ataque sexista a Patrícia Campos Mello como uma prática comum contra as mulheres. “Sempre uma mulher se destaca profissionalmente, ouve o questionamento: ‘quem você seduziu para estar aí?’ Patrícia Campos Mello tem uma história admirável como jornalista”, disse.

Ela destacou ainda que o Brasil é signatário de tratados internacionais de defesa dos direitos humanos que podem ser invocados para proteger as jornalistas atacadas.

Isabel Araújo disse ainda que os sindicatos de trabalhadores também estão sob ataque, e que calar o sindicato é calar a categoria. Ela citou o fato de um carro da Polícia Militar ter parado em frente à sede do Sindicato durante o ato e policiais terem feito perguntas intimidatórias, a exemplo do que acontecia na ditadura.

“O Brasil enquanto Estado soberano assumiu o compromisso de manter a liberdade sindical”, afirmou a advogada, sugerindo que os sindicatos se unam na defesa da liberdade sindical.

A advogada conclamou as mulheres presentes a lutarem para que a imprensa tenha sua voz e que as jornalistas não tenham sua dignidade posta à prova.

“Que esta reunião seja um passo nessa caminhada”, disse.

A jornalista Mirian Chrystus, coordenadora do movimento Quem Ama Não Mata, disse que a democracia e as mulheres têm uma relação intrínseca.

“A nós, mulheres, interessa a democracia, porque a democracia é o espaço em que os conflitos se resolvem pelo diálogo e não pela força”, enfatizou. “Nós, mulheres, representamos a diferença na democracia.”

Ela lembrou que o Quem Ama Não Mata, na sua origem, em 1980, enfrentou resistência até mesmo da esquerda, que achava que a luta central era contra a ditadura (1964-1985).

“Em 1980, colocamos na agenda que a violência contra a mulher era uma luta específica”, disse a Mirian Chrystus. “Em 2018 voltamos às ruas contra um crime que agora tem nome: feminicídio.”

Ela ressaltou o encontro inicialmente convocado em solidariedade à jornalista Patrícia Campos Mello tornou-se um ato em defesa da liberdade de expressão e das liberdades democráticas que se encontram ameaçadas no Brasil.

“Estamos sempre em defesa da democracia”, enfatizou.

Uma nova manifestação está sendo programada para o próximo domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

[2/3/20]

 

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