Por que a imprensa não reage?

Por Octávio Costa, no Ultrajano, em 9/10/19

“Todo dia, Bolsonaro ataca os repórteres de plantão na frente do Alvorada. Diz que só perguntam besteiras. Ao mesmo tempo, seu governo muda nomes de termelétricas que homenageavam personalidades de esquerda. Isso, sim, é uma grossa bobagem. Está na hora de reagir.”

Não consigo entender a postura dos editores dos grandes jornais com relação aos ataques de Jair Bolsonaro à imprensa. Todo dia, os repórteres que fazem plantão à frente do Palácio da Alvorada são humilhados pelo ex-capitão. São profissionais, estão ali a trabalho, mas Bolsonaro não quer saber. Aproveita a entrevista improvisada para fazer pouco das perguntas e mandar recado para os donos de veículos de comunicação. Os repórteres ouvem tudo calados, sem qualquer esboço de réplica. Submetem-se à humilhação passivamente, como se fossem obrigados a levar desaforo para casa.

Na segunda-feira, Bolsonaro qualificou de patifaria uma matéria do Correio Braziliense e chamou de esgoto a Folha de S. Paulo. Ontem, deu as costas após uma pergunta sobre a prática de tortura em presídios do Pará e esbravejou: “Parem de perguntar besteiras”. Depois apoiou-se na porta do carro e fez uma oração no mesmo teor: “Meu Deus, eu não sou pastor, não. Meu Deus, salve, lave a cabeça dessa imprensa fétida que nós temos. Lave a cabeça deles. Que bote coisas boas dentro da cabeça. Que possam perguntar e a ajudar a publicar matéria para salvar o nosso Brasil”.

Essa tem sido a rotina nas manhãs do Alvorada. E os editores dos jornais nada fazem para proteger seus profissionais. Ao contrário, parece até que consideram as agressões normais e inevitáveis. Não são. Recentemente, durante coletiva na Casa Branca, um repórter da CNN fez uma pergunta que irritou Donald Trump. O presidente dos EUA mandou o interlocutor se calar, mas ele insistiu. A assessora de Trump tentou retirar o microfone de suas mãos, mas o repórter não o entregou. A cena foi transmitida ao vivo para todo o país. E Trump ficou roxo de raiva. Soube-se que, mais tarde, a credencial do jornalista da CNN foi cassada. O que não chegou a ser surpresa. Ossos do ofício.

Em Brasília, apesar dos ataques diários contra a imprensa, ninguém rebateu até hoje. Bolsonaro diz que as perguntas são idiotas, não passam de besteiras, e ainda ganha aplausos dos simpatizantes presentes. Os jornalistas não protestam e às vezes acham o destempero engraçado. Mas já está na hora de reagir. Idiota é um governo que muda os nomes das termelétricas da Petrobras que homenageavam personalidades de esquerda. Isso, sim, é uma enorme bobagem. Quando Bolsonaro se irritar com uma pergunta, cabe ao repórter insistir. Se ele afirmar que a pergunta é idiota, o jornalista deve replicar e exigir respeito. Não está na frente do Palácio como um turista. É um profissional e assim deve ser tratado.

Existe, sem dúvida, o risco de cassarem a credencial. Mas esse é o preço a pagar para manter a cabeça erguida (e os editores sabem disso). Chega de humilhação.

(Publicado pelo Ultrajano.)

 

#LutaJornalista

#SindicalizaJornalista

[10/10/19]

 

Veja também

Ética jornalística: o desabamento do Edifício Andrea, em Fortaleza

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) e a Federação Nacional dos ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *