O jornalismo não morreu

Por JOÃO PAULO CUNHA

A história recente da imprensa comercial brasileira é uma memória de seguidas infâmias. Ajudou a dividir o país, assumiu pautas partidárias antipopulares, extirpou a pluralidade de vozes, se tornou protagonista do golpe contra a democracia, fez do combate à corrupção a bandeira de redenção nacional. Em todos os casos, jogou contra seu maior patrimônio: a credibilidade.

Essa ação orquestrada pelas empresas mais poderosas e próximas ao poder econômico, que tiveram sempre seu patrimônio garantido e valorizado pela ligação implícita com o Estado e seus cofres, foi montada em torno do avesso do compromisso com a verdade. O jornalismo foi deixado de lado em favor da construção de uma atmosfera de despolitização e incitamento ao confronto. Era preciso arriscar tudo, até sua identidade, para recuperar o poder.

A imprensa convocou para manifestações em vez de informar sobre sua origem e destinação; defendeu projetos particulares em lugar de valores republicanos e universais; elegeu vozes autorizadas para edificar o pensamento único, quase sempre convocadas entre seus próprios porta-vozes. E fez mais: ajudou a compor o cenário ideal para o golpe jurídico-parlamentar contra a vontade popular e transformou uma ação jurídica em cruzada moral com direito a heróis e destruição de setores da economia.

No entanto, ao fazer esse jogo, mandou para escanteio seu patrimônio mais importante, o próprio jornalismo como instrumento de garantia da liberdade e do aprimoramento democrático. De tal forma se insurgiu contra a opinião pública em favor da opinião publicada que acabou, ela mesma, sendo deixada de lado em favor de narrativas comprometidas e delirantes. A chamada imprensa profissional se tornou voz única, monocórdia e sem energia, abrindo o flanco para blogs comandados por indigentes propagandistas do atraso.

Outro lado 

A recente série de reportagens do The Intercept sobre a manipulação da Lava Jato por juízes e procuradores, entre outras qualidades próprias do trabalho que está sendo levado aos leitores pelo site e seus parceiros, podem ajudar a resgatar o jornalismo para seu papel civilizatório. O que tem sido trazido ao público, ao lado das revelações em si, com sua extrema gravidade, é uma recuperação do papel do jornalismo como ferramenta indispensável à democracia.

Mas é importante lembrar: o jornalismo não havia morrido. Se a imprensa comercial fez tudo para assassinar sua missão social, o trabalho de muitos profissionais e de veículos populares foi capaz de manter acesa a chama de um ofício que está na origem e na garantia de aprimoramento do regime democrático. Foram os profissionais e comunicadores populares, ao lado de alguns veículos independentes que mantiveram a dignidade, que permitiram que o cenário não fosse totalmente arrasado. E que servisse de guia a colegas mantidos no círculo estreito da autocensura e do encolhimento do mercado.

É, por isso, bastante significativo que algumas das chamadas “grandes” empresas de comunicação se apressem nesse momento para uma acanhada autocrítica (algo que sempre cobraram arrogantemente da esquerda) de suas posturas nos últimos anos. Agora, frente à evidência do monstro que ajudaram a parir, se posicionam criticamente em editoriais, abrem espaço para colunistas menos alinhados e até estabelecem parcerias com o The Intercept na divulgação da Vaza Jato.

Há algo de oportunista nisso tudo. Mas também de verdadeira oportunidade. O jornalismo empresarial percebeu que não pode viver à sombra de seus interesses ideológicos em economia e política, que sempre dirigiram suas coberturas. O quarto poder deu com os burros n’água, achou que controlaria as consequências de sua indignidade com as mesmas ferramentas de sempre. Ficou de fora e decidiu fazer uma psicanálise selvagem em direção às origens de seu trauma.

Com isso, o verdadeiro jornalismo e a defesa da liberdade de expressão retornam com a força que precisam ter numa sociedade livre. Os profissionais que durante o outono da verdade cumpriram com honestidade intelectual seu papel já ocupam novamente a posição de referência para a cidadania. Algo que começa a ser imitado pelos profissionais de veículos tradicionais, que parecem ter ganhado finalmente a autorização para exercer sua profissão, fazendo perguntas tão indigestas quanto necessárias.

Simplesmente, fazer jornalismo. 

A retomada do sentido da profissão se dá em conjunto com a valorização de uma expressão que parecia meio em baixa, a sociedade civil. O retorno recente da voz altiva da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) é um alento que aponta para a repolitização do país e para a compreensão da importância da dimensão coletiva, que deve se unir com a mesma energia vinda da mobilização popular. A verdade precisa vir das ruas.

Como ficou claro durante a votação da destruição da Previdência, o parlamento parece ter limites estruturais para puxar esse processo de resistência e contraofensiva. Fora as esperadas manifestações da esquerda, as demais forças se mantêm ainda à espera do desenrolar dos acontecimentos, sempre de olho do cálculo político a médio prazo.

Não foram capazes nem mesmo de se manifestar de forma contundente contra a sequência de manifestações tóxicas do presidente e seus acólitos.

O vergonhoso alinhamento do jornalismo comercial com os seguidos golpes contra o povo foi capaz de muita coisa, até mesmo trazer uma aberração moral, política e intelectual ao poder. Mas não foi capaz de matar o verdadeiro jornalismo, calar as iniciativas populares e os profissionais dignos do ofício. Por vezes, o veneno pode ser o melhor remédio.

(Publicado pelo Brasil de Fato. Crédito: Clívia Mesquita.)

 

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[5/8/19]

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