“Nenhuma narrativa substitui a reportagem como documento sobre a história em movimento”

Discurso da jornalista Eliane Brum lido durante o prêmio Comunique-se destaca o papel imprescindível do jornalismo num momento brutal do Brasil.

“Infelizmente não pude estar com vocês nesta noite porque, neste momento, estou em São Francisco, na Califórnia, para a Cúpula do Clima. Mas sei que estou muito bem representada pela Carla Jimenez, diretora de redação do El País Brasil. Queria começar justamente agradecendo à Carla e ao El País pelo respeito absoluto pelo meu trabalho. Publiquei minha primeira coluna no El País no primeiro dia do El País no Brasil e, desde então, encontrei no El País o melhor espaço para exercer o jornalismo que acredito. Tenho muito orgulho de fazer parte deste projeto que, em cinco anos, marcou uma diferença de qualidade e conquistou um lugar de independência no jornalismo feito no Brasil.

“Quero também agradecer ao Comunique-se por todos os anos se esforçar para a realização deste prêmio, apesar das turbulências do país. E, principalmente, agradecer a todos que, com o seu voto, reconheceram o meu trabalho e me trouxeram até aqui.

“Este é um momento brutal para o Brasil. A imagem do Museu Nacional do Rio em chamas literaliza a profundidade da nossa crise. O Brasil queima.

“Estamos à beira de uma eleição em que o candidato em primeiro lugar nas pesquisas está preso e impedido pelo judiciário de disputar a eleição. E o candidato em segundo lugar levou uma facada num evento de campanha. É crescente o sentimento de que o judiciário não faz justiça, de que o voto vale cada vez menos e de que vivemos o que poderíamos chamar de democracia sem povo: a cada dia mais um direito a menos.

“Num momento de crise climática, a maior relevância do Brasil no cenário internacional é ter no seu território a maior porção da maior floresta tropical do mundo. Mas desde que os ruralistas se tornaram fiadores do governo, cresce o poder da grilagem na Amazônia e os desmatadores avançam justamente sobre as áreas protegidas. Em Anapu, onde a missionária Dorothy Stang foi morta em 2005, hoje a situação é muito mais explosiva. Desde 2015, 16 camponeses foram assassinados sem que nada se mova neste país.

“Nas comunidades do Rio, cabeças de crianças negras têm sido arrebentadas à bala, antes e depois da intervenção. O Brasil não tem guerra, o que tem é massacre. E há séculos ele destrói os mesmos corpos: o dos negros e o dos indígenas.

“A imprensa não é imune às contradições. E desempenhou um papel na atual crise. Este papel também precisa ser iluminado. Não são só os partidos que precisam fazer autocrítica. Mas o jornalismo e, principalmente a reportagem, são imprescindíveis. Não há nenhuma narrativa que possa substituir a reportagem como documento sobre a história em movimento. E o que se espera de nós é que sejamos capazes de resistir e fazer reportagem no momento em que, por todas as razões, é mais difícil fazer reportagem.

“Estou na Cúpula do Clima para, junto com um grupo de jornalistas e com o Centro Pulitzer, lançar um fundo global para financiar reportagens de profundidade na Amazônia e fortalecer o jornalismo local feito desde a Amazônia. O Brasil e o planeta só pararão de queimar quando formos capazes de voltar a imaginar um futuro onde possamos viver. Queria terminar dizendo ‘muito obrigada’. E, o mais importante: Marielle Presente.”

(Publicado no El País. Foto: o Museu Nacional em chamas. Crédito da foto: Marcelo Sayão / Efe.)

[13/9/18]

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