Ruy Muniz, que deve R$ 70 milhões a trabalhadores e não paga, arremata por R$ 259 milhões hospital e faculdade no PR

Deu na imprensa: o consórcio R+, liderado pelo empresário Ruy Muniz, dono do jornal Hoje em Dia, arrematou em leilão na sexta-feira 17/8, por R$ 259 milhões, o Hospital Evangélico e a Faculdade Evangélica, em Curitiba. Para participar do leilão, Ruy Muniz – que deve R$ 70 milhões em dívidas trabalhistas e não paga, segundo estimativas dos sindicatos dos trabalhadores das categorias onde o empresário mais atua – depositou uma caução de R$ 5 milhões. E agora tem dois dias úteis para pagar a entrada do negócio, no valor de R$ 51,8 milhões.

À BandNews FM, Ruy Muniz “garantiu” que pagará os salários dos funcionários em dia e que não haverá demissões. Ou seja, a mesma coisa que disse aos trabalhadores do Hoje em Dia, às vésperas de demiti-los em fevereiro de 2016, sem pagar as verbas rescisórias e sequer o salário do mês. E a um sem-número de trabalhadores da educação e da saúde em Minas Gerais.

A saga de Ruy Muniz é um retrato exemplar do Brasil do golpe. Nada ou muito pouco do que narramos a seguir está nas notícias publicadas sobre a nova aquisição do político empresário.

Calote

Ruy Adriano Borges Muniz comprou o jornal Hoje em Dia do Grupo Bell, no final de 2015. No dia 29 de fevereiro de 2016, dispensou 38 jornalistas. A demissão em massa aconteceu de surpresa, sem qualquer negociação com o Sindicato, como exige a lei. Ao contrário, em reuniões com a redação a direção do jornal falava em investimentos e contratações. No último dia de fevereiro, à medida que foram terminando seu trabalho e encerrando sua jornada, os jornalistas foram chamados a uma sala e comunicados da demissão. Alguns, que estavam de folga ou tinham saído mais cedo, foram procurados em casa para assinar o aviso.

O golpe sofrido pelos trabalhadores ficou ainda pior quando, ao fazer a rescisão, o jornal tentou pagar a cada um apenas R$ 500! Com a cara-de-pau de quem tem grande experiência nessa prática, Ruy Muniz, por meio dos seus prepostos, ignorou todos os direitos trabalhistas dos jornalistas, alguns dos quais com quase trinta anos de casa. A empresa persistiu no crime mesmo diante da interferência do Sindicato e da mediação do Ministério do Trabalho.

Em defesa dos direitos dos jornalistas, o Sindicato entrou na Justiça. Em abril de 2016, o juiz do processo, Marcos Vinícius Barroso, concedeu tutela de urgência para que os dispensados tivessem acesso ao seguro-desemprego e ao FGTS e determinou bloqueio de créditos da empresa no valor de R$ 1,8 milhão para pagamento da dívida trabalhista. Nem assim Ruy Muniz pagou a dívida.

Atendendo a solicitações do Sindicato, a Justiça tomou novas providências para pagamento da dívida.

No dia 1º de junho de 2017, jornalistas, gráficos e empregados na administração do Hoje em Dia ocuparam a antiga sede do jornal. A ocupação visou a denunciar as falcatruas envolvidas na venda do prédio, reveladas na delação da JBS. Na delação, os donos da JBS informaram que compraram o “predinho” por valor superfaturado, a pedido do senador Aécio Neves, para ajudar os antigos donos do jornal, do Grupo Bel. A venda a Ruy Muniz teria sido feita sem o prédio, pelo valor simbólico de R$ 1.

Em agosto de 2017, o procurador do Trabalho Geraldo Emediato de Souza abriu inquérito para apurar “denúncia de lesão à ordem jurídica e aos direitos sociais constitucionalmente assegurados aos trabalhadores” do jornal Hoje em Dia. Entre as irregularidades denunciadas estavam: pagamento de salário com atraso; descontos errados em folha; não pagamento do adicional noturno e de repouso remunerado; extensão da jornada sem pagamento de horas extras; ausência de segurança no trabalho; cálculo e desconto indevido de imposto de renda; trabalho sem carteira assinada; desconto e não depósito do FGTS.

Em outubro do ano passado o juiz Barroso determinou intervenção administrativa na Ediminas, empresa que publica o Hoje em Dia.

Em dezembro do ano passado, o jornal voltou a atrasar pagamento de salários, 13º e vale-alimentação.

Em março deste ano o juiz Barroso determinou uma inspeção na antiga sede do jornal para avaliar a situação do imóvel, se havia nele algum tipo de atividade econômica, se estava locado ou fechado e se existiam obras em andamento.

Em abril deste ano o jornalista Aloísio Morais revelou, com base em boleto do IPTU que a antiga sede do Hoje em Dia pertencia à JBS. Alguns dias antes, a Justiça tinha determinado a reintegração ao jornal, pela segunda vez, de Aloísio, ex-presidente do Sindicato e ex-diretor da Fenaj, que tinha imunidade e não podia ter sido dispensado.

No mesmo mês o juiz Barroso expediu alvará para liberar o dinheiro de pagamento das rescisões dos 38 jornalistas. O pagamento foi feito, mas os recursos liberados não quitaram a dívida integralmente.

Desvio de recurso

Depois do episódio vergonhoso da demissão dos 38 jornalistas, Ruy Muniz, então prefeito de Montes Claros, foi preso pela Polícia Federal, sob acusação de desvio de dinheiro público. A prisão aconteceu no dia seguinte à votação da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma, na qual a deputada Raquel Muniz, esposa de Ruy Muniz, votou a favor e citou a administração do marido como um exemplo para o país.

As imagens da prisão de Ruy Muniz e do voto de Raquel Muniz correram o mundo, desmoralizando os dois políticos. O casal foi acusado pela PF de inviabilizar a existência e o funcionamento dos hospitais públicos e filantrópicos de Montes Claros que atendem pelo SUS para favorecer o hospital pertencente ao seu grupo econômico. Em dezembro de 2016, a Justiça Federal em Belo Horizonte decretou intervenção judicial em quatro empresas de Ruy Muniz e Raquel Muniz. Segundo o MPF, o casal utilizava receitas de instituições que por lei não poderiam distribuir lucros para benefício próprio e de sua família.

Candidato à reeleição naquele mesmo ano, Muniz foi derrotado. Sua carreira política parecia encerrada, mas no Brasil do golpe o crime parece compensar. Ruy Muniz voltou ao noticiário quando se descobriu que, mesmo processado por desvio de dinheiro público, o empresário continuava recebendo repasses do governo Temer.

No dia 24/10/17, o jornal Estado de Minas informou que o governo federal liberou R$ 10,9 milhões para o Hospital Doutor Mário Ribeiro da Silveira, de Ruy Muniz, em Montes Claros, o mesmo hospital que foi alvo da Operação Máscara da Sanidade II, da Polícia Federal, que levou o ex-prefeito à prisão.
O político empresário também continuou recebendo repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Por isso, o juiz Marcos Vinicius Barroso, da 12ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte, determinou bloqueio de recursos do FNDE destinados ao Grupo Soebras, de Ruy Muniz, para pagamento das dívidas trabalhistas de ex-empregados do Hoje em Dia.

Em dezembro de 2017, Ruy e Raquel Muniz foram condenados pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) por improbidade administrativa, com pena de multa, perda dos direitos políticos e proibição de contratar com o poder público. Em julho passado o mesmo TRF-1 bloqueou bens do casal no valor de R$ 3 milhões.

Livre e aparentemente mais rico do que nunca, caloteiro inveterado, devendo cerca de R$ 70 milhões em dívidas trabalhistas a jornalistas, professores, médicos, enfermeiros e outros trabalhadores, Ruy Muniz continua aumentado seu patrimônio, comprando empresas em dificuldades financeiras. Sua forma peculiar de ser um empresário bem-sucedido é dar calote nas dívidas, dispensar trabalhadores, não pagar o acerto trabalhista e nem os salários.

No caso da faculdade e do hospital evangélicos de Curitiba, Ruy Muniz assumiu uma dívida de R$ 230 milhões. Seus sócios no novo empreendimento são alguns dos mesmos que o ajudaram na compra do Hoje em Dia.

O mais impressionante na notícia da BandNews/Uol é que, para se habilitar ao leilão, Ruy Muniz teve de “apresentar uma série de certidões e declarações, além de garantir ao menos 60% dos leitos atuais destinados ao SUS, os contratos vigentes e o depósito de uma caução de R$ 5 milhões”.

Como é que um empresário que foi preso, processado e condenado consegue apresentar tais certidões e declarações? Esta é a pergunta que todos os trabalhadores lesados por Ruy Muniz estão se fazendo.

Além disso, o empresário político tem dois dias úteis para depositar o valor da entrada do negócio, de 20%, ou seja, R$ 51,8 milhões.

Ruy Muniz não tem dinheiro para pagar suas dívidas trabalhistas milionárias, mas tem dinheiro para assumir as dívidas de terceiros, comprar novas empresas, fazer novas falcatruas e ficar cada vez mais rico!

#LutaJornalista

#SindicalizaJornalista

(Imagem: captura de tela, RIC TV Paraná.)

[20/8/18]

 

 

Veja também

SJPMG repudia ataques a jornalistas por vereadora de Bom Jesus do Amparo

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais vem a público repudiar os ataques feitos ...

4 comentários

  1. Espero sinceramente que esta postagem do Sindicato chegue até os profissionais da citada faculdade/hospital, para que já fiquem precavidos. Minha solidariedade a eles.

  2. E, acaba de ser anunciado o negócio, com a A. C. Santa Casa do Rio Grande, RS.
    Os salários dos funcionários estão em atraso de 5 meses, sem contar a falta do 13º, q ninguém fala.
    Como pode, um indivíduo desses não chegar a 2ª Instância e ir para cadeia?
    Só nas MG do Aécio mesmo!

    • Gabmar Da Cruz Cunha

      Isso é Brasil onde o erro o roubo esta sempre em evidência, o certo vira erro não tem correção pobre ladrão morre na prisão rico corrupto safado rouba o Povão os cofre público fica preso na Mansão prisão Domiciliar Acorda Brasil mais rigor nessas falcatruas.

  3. Ja começou errado, não por comprar um hospital endividado, mas por ser evangélico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *