Dieese: reforma trabalhista é parte de um projeto que desnacionaliza o Brasil e entrega ativos ao capital estrangeiro

Mais do que o ataque aos direitos dos trabalhadores, a reforma trabalhista sancionada pelo presidente golpista Michel Temer no dia 13 de julho e que entrará em vigor 120 dias depois, expressa os interesses do capital em uma nova fase da economia mundial e veio para ficar. Nessa fase, o Brasil abre mão de um projeto de desenvolvimento nacional próprio e cede suas riquezas ao capital financeiro, que investe pesadamente na compra de ativos, mas para isso precisa de garantias legais. A reforma trabalhista é uma dessas garantias e visa a garantir que a exploração do trabalho seja facilitada e não seja contestada por ações na Justiça.

Esta análise foi feita pelo diretor técnico do Dieese – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, economista Clemente Ganz Lúcio, durante exposição para sindicalistas feita na 14ª Jornada Nacional de Debates, realizada no dia 27 de julho, em São Paulo, e transmitida pela internet. O objetivo da jornada foi auxiliar sindicatos de trabalhadores de todo o país nas campanhas salariais. A íntegra da exposição está disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=8jt7wpfmTNI.

Clemente Ganz informou que o Dieese, que funciona há 62 anos e tem escritórios regionais, inclusive em Belo Horizonte, já está oferecendo cursos que repensam a organização sindical a partir das mudanças na legislação trabalhista. Outro curso é sobre marketing sindical: como fazer o trabalho de comunicação com a base do sindicato. “Estamos organizando atividades para dar informação, conhecimento, subsídios para todo mundo começar a pensar a reorganização”, disse o diretor do Dieese.

Transferência de ativos

Clemente Ganz enfatizou que as regras do jogo mudaram profundamente com a reforma trabalhista. “Não dá mais para a gente pensar a ação sindical com as referências que tínhamos até duas semanas atrás”, disse. “Essas regras alteram profundamente o resultado do jogo e a gente precisa entender porque isso está acontecendo, para saber como se preparar.”

Para o economista, os trabalhadores precisam entender que neste momento o Brasil se integra de forma acelerada a um comando econômico no qual predomina o interesse do sistema financeiro, que mobiliza toda a riqueza do planeta para reconfigurar a organização econômica capitalista no mundo.

“De 2008 pra cá, os capitalistas começaram a se organizar enquanto classe, a organização econômica capitalista passou a ter um projeto para o mundo”, disse Clemente. “E o que estamos fazendo no Brasil agora é integrando uma das maiores economias do planeta, que não estava plenamente integrada, a esse projeto.”

O projeto em curso do governo golpista é um projeto de desnacionalização da economia brasileira. “Essa é uma diferença fundamental. Significa que estamos transferindo a nossa base econômica para o interesse internacional. Isso é fundamental para nós entendermos a reforma trabalhista”, disse Clemente.

Ele explicou que o governo golpista está preparando as condições para que a economia brasileira seja absorvida pelo capital internacional, isto é, criando condições institucionais – regras e leis – e possibilidades para transferência de ativos nacionais para o capital financeiro internacional.

O Brasil está barato

Clemente Ganz citou matéria recente do jornal inglês Financial Times segundo a qual o Brasil é o país que reúne o maior volume de ativos disponíveis no planeta baratos. “Está barato comprar o que de mais importante existe para valorização do capital. Está barato comprar terra, está barato comprar riqueza natural, petróleo, minério, está barato comprar empresa, está barato comprar empresa estatal. Está barato comprar”, disse o diretor do Dieese.

No governo golpista, o principal programa do BNDES passou a ser o de desestatização. “Até então o BNDES se voltava para fazer investimento produtivo, melhorar a capacidade produtiva da economia brasileira. Agora o BNDES se prepara para transferir os ativos do Estado para o setor privado”, disse Clemente Ganz.

Ele acrescentou que provavelmente no segundo semestre nós viveremos no Congresso experiências de venda de terras a estrangeiros, haverá mudanças nas regras de exploração de minérios, o espaço aéreo será liberado para o capital internacional e a Petrobrás vai vender as quatro mais importantes reservas de petróleo do mundo ainda não exploradas.

“Talvez os noruegueses venham aqui e comprem uma base de petróleo. A pergunta que nós deveríamos fazer é: ‘nós podemos ir lá e comprar uma base de petróleo na Noruega?’ A resposta é: ‘não’, mas eles poderão vir aqui comprar agora e comprarão”, disse o economista. “Nós estamos vendendo, portanto temos de entender que a nossa base econômica, na qual trabalhamos, está sendo transferida, seja uma estatal, seja uma empresa privada, seja um recurso natural. Tudo está em um processo de mudança muito rápida. Quando digo muito rápida é em meses. Nos próximos seis meses vocês verão mudanças profundas às quais não estamos dando a menor atenção.”

Unha encravada

Clemente Ganz comparou a reforma trabalhista a uma unha encravada muito inflamada, que pode virar gangrena, se não for tratada, mas não é o principal problema.

“A mudança da qual estou falando é dramaticamente importante, porque ela altera toda a nossa base daqui pra frente. A nossa vida sindical, a nossa vida em sociedade, a possibilidade de um projeto de desenvolvimento, de construir bem-estar, qualidade de vida foram para o espaço. Nós perdemos a soberania de conduzir esse projeto e transferiremos para outros”, enfatizou o diretor técnico do Dieese.

Na atual fase do capitalismo internacional, os acionistas passam a ser os comandantes da economia. As riquezas produzidas pelas empresas são apropriadas pelos acionistas, como distribuição de lucros, e não mais investidas no desenvolvimento nacional.

“Daqui pra frente, não mais Estados têm grandes empresas, grandes empresas controlam seus Estados para desenvolver a sua política, e é isso que está se operando no mundo”, explicou Clemente Ganz, acrescentando que o Brasil é um caso único de nação grande e rica que entrega seus ativos ao capital internacional.

[31/7/17]

Veja também

SJPMG repudia ataques a jornalistas por vereadora de Bom Jesus do Amparo

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais vem a público repudiar os ataques feitos ...

Um comentário

  1. Prezados companheiros (as) do Dieese,

    Estou plenamente de acordo com as análises do Clemente Ganz. Realmente, existe um Governo Mundial Oligarca com controle do capital financeiro improdutivo que está determinando uma nova geopolítica mundial. Para enfrentarmos esta situação, o movimento sindical precisa urgentemente combinar as lutar corporativas com a luta PELA SOBERANIA NACIONAL. Digo urgentemente, porque o golpe foi apenas uma peça para consolidar o que foi muito bem analisada, desnacionalizar a economia brasileira com serias consequências para o futuro do Brasil. Infelizmente, o povão ainda está bastante distante desta discussão porque não estamos sendo capazes de traduzir esta realidade em informações que dizem respeito ao cotidiano das pessoas. Ai entra outro grande problema: falta de mídia do movimento sindical. Por quê não resolve? Proposta: juntar todos os departamentos de imprensa dos sindicatos, com jornalistas, apoio administrativo, etc e montar um jornal popular em escala nacional. Já existem experiências louváveis como o Brasil de Fato e o Jornal Brasil Popular mas em escala pequena para a grandeza da luta que estamos enfrentando. É uma decisão de suma importância e política. Esta nas mãos da direção dos sindicatos. Esta ótima análise do Dieese precisa se transformar em ação política, do contrário não cumpri a função de subsidiar as ações dos movimentos populares. Parabéns pela matéria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *