Estação Liberdade – Rejeite o rejeito de minério!

Por Aline Frazão – Jornalistas Livres.

Nos anos 80, Minas Gerais já contava com a campanha “Olhem as montanhas”. A exploração de minério nessa época já era latente. Em 1997, a Companhia Vale do Rio Doce seria privatizada por Fernando Henrique Cardoso. Uma privatização criminosa que rendeu mais de 100 processos pois a empresa valia 9,6 bilhões mas foi vendida por 3,3 bilhões. E a mídia? Não fala nada disso.

As professoras Ângela Carrato e Sofia Diniz, o jornalista Geraldo Elísio e o integrante do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), Joceli Andreoli, falaram sobre o crime de Mariana no Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas, que acontece neste final de semana em Belo Horizonte. Sim, crime sim!

A Estação Liberdade é um grupo de pesquisa da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que mantém um blog, de mesmo nome, que estuda sobre temas da atualidade e mídia. Um deles foi o crime de Mariana: depois de debruçar sobre os significados dos nomes dados ao rompimento da barragem de Fundão: desastre, tragédia, acidente ou crime? Chegou-se à conclusão de que o último era o mais adequado: crime, que arrasou o Rio Doce, atingiu o mar do Espírito Santo e da Bahia, deixou mortos, feridos e desaparecidos e pessoas sem água.

O papel da mídia no crime de Mariana

Interessante observar como a mídia abordou o ocorrido, segundo pesquisa do grupo, nunca mencionando o nome da Vale como co-proprietaria da Samarco, além da BHP Bilinton, e a superficialidade da cobertura.

“Samarco, governos tucanos de Aécio e Anastasia são os responsáveis pelo crime. A mídia não contextualiza o crime. A Vale é uma das maiores anunciantes da mídia. Pimentel foi a primeira autoridade a reconhecer a responsabilidade da empresa no rompimento da barragem. Aécio, irritado, disse que não era hora de apontar culpados pelo desastre. A mídia esconde que Samarco é Vale. Aécio, Perrela e Anastasia: três senadores que não fiscalizaram o setor minerário. 93% da chamada grande mídia não fala que Vale e BHP são as proprietárias da Samarco. Artigo na Folha de São Paulo no dia 06/11/2015 dizendo que a mineradora da Vale diz que barragem estava em total segurança, sendo que em 2013 já se apontava alto risco”. Essas foram algumas conclusões do estudo sobre a cobertura da mídia.

A transparência da Samarco é tanta, que seu advogado, Maurício Oliveira Campos Junior, era o responsável pela segurança pública em Minas Gerais no governo de Aécio Neves.

Alerta para o futuro: Gandarela pode ser pior

“Viaduto caindo, ciclovia caindo…enquanto engenheira civil, não posso me calar”,
afirmou uma das professoras responsáveis pela pesquisa.

Bento Rodrigues era um subdistrito de Mariana que existia há mais de 300 anos. Ele foi destruído pela lama dos rejeitos de minério. Este foi o pior desastre no mundo em termos de barragem de rejeitos.

Estamos correndo um grande risco, como chamou a atenção o jornalista e ambientalista Elísio. A Vale quer construir uma barragem 10 vezes maior que a de Fundão, em Rio Acima, na região metropolitana: “A Vale tem uma fé que remove montanhas. As pessoas que lêem a bíblia dizem que bem aventurado são os pobres de espírito pois deles serão o reino dos céus. Se essa citação for verdade, eu aposto e ganho que Minas Gerais passa a ser acionista majoritária do céu, com os governos Carlos Alberto Pinto Coelho, Antonio Anastasia e Aécio Neves. Estamos aqui para resistir para que nenhuum crime desse porte ou de porte muito maior venha a acontecer”.

Por fim, é preciso olhar pelos atingidos, pois segundo o representante do MAB, daqui a pouco “os atingidos serão os culpados da tragédia”, pois não têm voz e não são tratados com o devido cuidado pelas autoridades públicas e pela empresa, ambos responsáveis pelo crime, como já mencionado.

 

Na foto, da esquerda para a direita: Ângela Carrato, Joveli Andreoli, Sofia Diniz e Geraldo Elísio, durante o debate com blogueiros e ativistas digitais. (Crédito da foto: Sô Fotocoletivo.)

(Publicado no Jornalistas Livres, em 21/5/16.)

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